A história da língua alemã

A nossa história sobre a língua alemã explica de onde vêm os artigos (der, die, das) ou a palavra deutsch. O que mais você pode descobrir? Aproveite sua leitura!
Escrito Por Sarah Waldmann
A história da língua alemã

Falado por mais de 100 milhões de pessoas, o alemão é hoje o idioma nativo mais utilizado na União Europeia. Mas será que você sabe como surgiu e se desenvolveu essa língua com sua gramática tão complicada e palavras tão compridas? Junte-se a nós em uma emocionante viagem pela história da língua alemã — desde os seus primórdios, cerca de 3 mil anos atrás, até a incorporação de sua letra mais jovem, que acaba de completar três aninhos. 

Como tudo começou: a língua protogermânica 

Em algum momento entre os anos 1000 a.C. e 450 a.C., ou seja, muito antes da existência do que hoje conhecemos como Alemanha, a primeira mudança linguística fez com que o idioma protoindo-europeu se ramificasse, ocasionando o surgimento de uma língua protogermânica.  (Mudança linguística é o nome dado ao processo de transformação verificado em todos os idiomas e caracterizado por alterações fonéticas ao longo do tempo.) Tendo em vista a raridade de documentos produzidos naquele período, é difícil saber em detalhes como se deu a evolução dessa língua protogermânica. Os primeiros germanos deixaram, no máximo, algumas inscrições rúnicas em sepulturas e objetos de culto. Histórias e cânticos foram transmitidos oralmente. No entanto, alguns termos germânicos como brauda (que daria origem à palavra Brot, pão em português) ou grīpan (greifen, agarrar) sobreviveram até hoje de forma modificada.

Os povos germânicos e a escrita

A chegada dos romanos em 55 a.C., mudou não apenas a vida, mas também a língua dos povos germânicos. O vocabulário desses povos se expandiu graças à incorporação de termos latinos, frequentes sobretudo em esferas como o comércio, a guerra e a infraestrutura. Foi o que aconteceu com palavras como mura (Mauer em alemão, murus em latim, muro em português) e strazza (Straße em alemão, via strata em latim, rua/estrada em português), por exemplo. Vale a pena frisar, porém, que não houve entre os germânicos um idioma único, uniforme.  Cada povo tinha sua própria forma de falar. Nesse sentido, podem-se diferenciar grupos de dialetos, como é o caso do nórdico antigo, do saxão antigo, do alemânico e do gótico.  O gótico, aliás, foi a primeira língua germânica a ganhar uma forma escrita.  Isso se deveu ao bispo Úlfilas, que, no século IV d.C., criou um alfabeto a partir de letras latinas e gregas e o usou para traduzir a bíblia.  O primeiro verso do pai-nosso ficou assim: Atta unsar, þu in himinam, weihnai namo. Assim como aconteceu com todas as línguas germânicas orientais, o gótico foi extinto. No entanto, vários documentos escritos naquela época sobreviveram à passagem do tempo.

Alto-alemão antigo (600-1050 d.C.)  

A história do idioma alemão propriamente dito teve início na época das invasões germânicas e da expansão do cristianismo, isto é, por volta do ano 600 d.C.  Na chamada segunda mudança linguística, um grupo de línguas germânicas ocidentais se dissociou de outros idiomas então falados naquela região, dando origem ao que hoje se conhece como alto-alemão antigo. A segunda mudança linguística foi um momento de grande importância na história do alemão. Graças a ela, palavras como Pfanne (frigideira), Zeit (tempo) e Tochter (filha) são pronunciadas de forma diferente da de suas equivalentes em idiomas como o holandês e o inglês: pan/pan, tijd/time, dochter/daughter.   Além do mais, a segunda mudança linguística colaborou para a divisão dialetal do alemão:  no sul da Alemanha, a mudança linguística aconteceu de forma completa. Na Alemanha central, a mudança foi parcial. Já no norte da Alemanha, essa mudança praticamente não ocorreu — e, assim como no inglês, antigos fonemas foram mantidos (por exemplo: p, em vez de pf, etc.). O desenvolvimento desse fenômeno fica bastante evidente nos dialetos e idiomas nórdicos

Foi também na época da segunda mudança linguística que a palavra deutsch (alemão) apareceu pela primeira vez com seu significado atual.  Derivada do germânico diot (povo) ou diutisc (pertencente ao povo), essa palavra foi usada para descrever habitantes do Reino Franco que falavam idiomas germânicos.

Alto-alemão médio (1050-1350 d.C.)  

Cavaleiros, feudos, cantigas:  a Alta Idade Média não foi moldada apenas pelo crescimento econômico e pelo desenvolvimento cultural da sociedade, mas também por sua fragmentação política. A partir de 1050, o que hoje conhecemos como Alemanha começou a se dividir em pequenos territórios dominados por nobres, formando uma verdadeira colcha de retalhos. Essa característica política teve efeitos no desenvolvimento do idioma alemão:  cada um desses territórios tinha sua própria forma de falar, seu próprio dialeto, sua própria vida cultural. Na corte da dinastia dos Staufer, por exemplo, foram escritos importantes textos épicos desse período, como a Canção dos Nibelungos, Percival e Tristão. Walther von der Vogelweide escreveu sua cantiga de amor Herzeliebez vrouwelin (Querida senhorita) em alto-alemão médio. O alto-alemão médio não foi bem um dialeto ou um idioma propriamente dito, mas um conjunto de variedades linguísticas faladas no sul e no centro da Alemanha durante essa época. De todas as formas, o alto-alemão médio tinha algumas características em comum com o alemão contemporâneo:  além do florescimento dos fonemas ä, ö e ü, as sílabas átonas foram ainda mais suavizadas, como evidenciam as vogais que formam a última sílaba de certas palavras (hōran, ouvir, em alto-alemão antigo, se tornou hœren em alto-alemão médio). Essa mudança na pronúncia deu origem a uma espécie de reação em cadeia:  o enfraquecimento das vogais fez com que desaparecessem as declinações anteriormente situadas no final das palavras. Como consequência, o uso dos artigos passou a ser essencial para indicar a função sintática de um substantivo.

Alto-alemão protomoderno (1250-1550 d.C.)

O período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna foi caracterizado por importantes mudanças na esfera cultural. Essas mudanças, por sua vez, exerceram uma enorme influência no desenvolvimento da língua alemã. Em 1545, ao traduzir a bíblia do hebraico e do grego antigo para o alemão, Martinho Lutero acabou contribuindo para o enriquecimento do vocabulário do idioma ao criar palavras como Denkzettel (lembrete), Feuereifer (zelo fervoroso) e Lästermaul (má-língua). Lutero também fez com que palavras até então usadas apenas regionalmente — como Ziege (cabra) e Ufer (margem) — passassem a ser conhecidas em todo o território de língua alemã. Entretanto, seu feito mais importante foi ter lançado as bases para a criação de uma língua uniforme. Afinal, graças à disseminação de sua tradução, o alto-alemão moderno, baseado nos dialetos do sul e do centro da Alemanha, passou a encontrar cada vez mais espaço no norte do país. 

Além do mais, as inovações técnicas da época, impulsionadas pela invenção da imprensa, por Johannes Gutenberg (por volta de 1446), fizeram com que a língua escrita ganhasse mais importância. Como consequência, foram surgindo formas de falar e escrever que tinham um alcance suprarregional, ou seja, que podiam ser compreendidas por falantes de diversos dialetos. Ao mesmo em que crescia a quantidade de livros impressos em alemão, o florescimento do humanismo trouxe inúmeras palavras latinas para o idioma, como é o caso de Dekret (decreto), zitieren (citar) e Examen (exame). Pode-se dizer que inclusive a gramática alemã foi, de certa maneira, reformulada ao sabor do latim, com a introdução, por exemplo, do tempo futuro formado pela combinação do verbo werden com o infinitivo do verbo principal (ich werde reisen, eu vou viajar). Até então, usavam-se verbos no presente para indicar ações no futuro, como se faz hoje em dia novamente. 

A história da língua alemão é apenas o primeiro passo.

Uma língua escrita uniforme: o alto-alemão moderno (a partir do século XVI)  

Antes do século XVI, o idioma alemão contava com muitas variantes e diferentes padrões.   Esse cenário, porém, passou por uma grande transformação, que duraria até o século 18, graças ao desenvolvimento de uma língua escrita uniforme, criada com base nos dialetos do sul e do centro da Alemanha.   Apesar de algumas pequenas diferenças, pode-se dizer que essa língua, o alto-alemão moderno, corresponde ao alemão falado atualmente. Os dialetos do norte da Alemanha, em sua grande maioria, não desenvolveram uma língua escrita própria. A única exceção aqui é o holandês, que, até a Idade Média, era considerado um dialeto alemão. Foi apenas no final do século XVI que ele se tornou um idioma independente. 

O alemão como língua nacional: séculos XIX e XX  

Quando a maioria das regiões de língua alemã se fundiram para formar o Império Alemão, em 1871, o idioma da nova nação que surgia precisou passar por uma reforma que garantisse sua padronização. Nove anos mais tarde, Konrad Duden publicou o Vollständige orthographische Wörterbuch der deutschen Sprache (Dicionário ortográfico completo da língua alemã). A ortografia definida por essa obra ficou em vigência até a reforma ortográfica de 1996.

No século XIX, como consequência da Revolução Industrial, muitos termos técnicos foram adicionados à língua alemã: Elektrizität (eletricidade), Waschmaschine (máquina de lavar), Eisenbahn (ferrovia) são alguns deles. Muitas palavras surgidas nessa época foram emprestadas do inglês e do francês: Lokomotive (locomotiva), Billet (bilhete), Telegramm (telegrama).  Essa incorporação de novos vocábulos decorrente do desenvolvimento tecnológico e das mudanças sociais continuou ao longo do século XX, com a inclusão de palavras sobretudo inglesas ao idioma alemão: Computer (computador), Job (emprego) e Team (equipe).  

Embora pouco tenha acontecido em termos de pronúncia no século XX (com a exceção do r gutural, produzido na garganta, cada vez mais frequente que o r produzido com a vibração da ponta da língua), alguma simplificação foi observada nos casos do alemão.   O genitivo, por exemplo, vem sendo usado com cada vez menos frequência, pelo menos na língua falada. Em seu lugar, as pessoas costumam empregar o dativo: wegen dem Wetter (por causa do tempo), em vez de wegen des Wetters.

O alemão hoje em dia: tão diverso quanto seus falantes

Ao contrário do que aconteceu com o inglês, o francês ou mesmo o espanhol, o alemão nunca teve um alcance mundial. (Seria por causa de sua gramática complexa?) Apesar de todas as reformas feitas ao longo do tempo, a língua alemã ainda não é totalmente uniforme. Os dialetos que se desenvolveram há centenas de anos continuam sendo usados até os dias de hoje, especialmente nas regiões situadas mais ao sul. Não é de estranhar, portanto, que alguém nascido em Hamburgo tenha dificuldade em compreender o dialeto falado em Viena, por exemplo. A grande variedade de dialetos também é responsável pelo fato de haver tantos termos em alemão para uma mesma coisa. Os confortáveis chinelos que usamos quando estamos em casa podem ser chamados de Schlappen, Latschen, Pantoffeln, Puschen, Finken, Patschen   

E, como acontece com qualquer outro idioma, o alemão está passando por mudanças. A própria língua escrita não fica de fora das inovações: em junho de 2017, a letra ẞ, (Eszett) foi finalmente incorporada à ortografia alemã. É possível que, em algum momento (e para o deleite de quem está aprendendo alemão), os casos desapareçam do idioma. É possível também que uma terceira mudança linguística consiga descomplicar as estruturas silábicas do alemão. Quem sabe nossos tataranetos não estarão falando um alemão diferente daquele que conhecemos hoje?

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Sarah Waldmann
Tendo crescido no Lago de Constança em um ambiente multidialetal, Sarah fala hoje em dia mais do que somente o suábio e um pouco de baixo-alemão. Depois do ensino médio e das aventuras nos Andes, ela se mudou para Berlim onde estudou espanhol e português. Após várias estadias na Península Ibérica, ela iniciou sua pesquisa sobre a aquisição de fala e trabalha como autora freelance escrevendo sobre idiomas, Deus e o mundo.
Tendo crescido no Lago de Constança em um ambiente multidialetal, Sarah fala hoje em dia mais do que somente o suábio e um pouco de baixo-alemão. Depois do ensino médio e das aventuras nos Andes, ela se mudou para Berlim onde estudou espanhol e português. Após várias estadias na Península Ibérica, ela iniciou sua pesquisa sobre a aquisição de fala e trabalha como autora freelance escrevendo sobre idiomas, Deus e o mundo.

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