Elu, delu, amigue, bonite: a linguagem neutra no português brasileiro

Novas gerações de falantes do idioma têm buscado, especialmente em redes  sociais, formas mais inclusivas para abordar pessoas não-binárias.
A linguagem neutra no português brasileiro

O português é uma das diversas línguas que indica os gêneros feminino e masculino em sua estrutura. Em geral, palavras terminadas em a são femininas e em o, masculinas. Há, contudo, inúmeras exceções ao exemplo acima. Por exemplo, dilema é um vocábulo masculino e noção, feminino. Nestes dois casos, o gênero é identificado pelo artigo em frente à palavra: o  (sempre masculino) dilema e a   (sempre feminino) noção.

Existem outras terminações associadas aos dois gêneros no português, mas  será possível utilizar uma linguagem neutra para se referir a pessoas com.  identidade não-binária? Embora a resposta para essa pergunta seja sim, há ao menos duas linhas de raciocínio mais comuns.

Especialistas em “linguagem neutra”, assim como parte dos jovens que usam o idioma em redes sociais e no cotidiano, reconhecem a possibilidade de se adotar algo conhecido como uma “vogal temática” para além do a e do o, que agiria como um neutralizador. 

Quando falamos sobre substantivos e adjetivos, os exemplos mais frequentes adotam a letra e para esse fim. Essa vogal pode substituir as letras a ou o para torná-las neutras: amigo – amigue, bonita – bonite, caros – cares, talentosa/o – talentose.

Por exemplo, a saudação inicial de um email de trabalho costuma usar a palavra “caros” para se referir de forma geral a todas as pessoas copiadas, independente de gênero.

“Olá, caros, como vão?
A reunião começará em 30 minutos.” 

Existe, entretanto, um argumento de que o português se refere a grupos no masculino, mesmo que a maioria dos envolvidos seja de mulheres. Logo, se um grupo tiver 15 mulheres e um homem, a norma tradicional demanda o uso de “eles/deles” e do masculino (Eles compareceram à reunião/Os funcionários foram promovidos). Neste contexto, a vogal temática aparece como uma saída (“Olá, cares, como vão?”). 

Além disso, para que essa vogal funcione, é necessário adicionar um artigo neutro. No momento, o uso do ê (para diferenciá-lo da vogal e e do verbo ser na forma de é, tanto na escrita quanto na pronúncia) tem sido o mais comum. 

Ê funcionares foram promovides.”

Quando nos referimos a pronomes, há uma variação do ele/dele (masculino) e ela/dela (feminino). A linguagem neutra sugere como opção elu/delu/minhe.

Exemplos: 

  • Esse carro é delu?
  • Elu terminou o projeto antes do prazo e ganhou um dia de folga. 

Outras formas de neutralização circulam nas redes sociais com menor impacto. No passado, a vogal temática era substituída por símbolos como @ ou pela letra x. Mas esses sinais não possuem correspondência sonora no português, o que exclui pessoas que dependem de leitores automáticos para acessarem informações online.

O uso de vogais temática e pronomes neutros, entretanto, não é aceita por todos os linguistas. Para aqueles que seguem a “norma culta” do português, o idioma já possui neutralidade por meio do pronome eles e dos artigos o/os (ambos masculinos), uma vez que esses são utilizados para se referir a grupos com homens e mulheres. “Eles foram ao mercado” pode se referir a dois homens ou a um homem e uma mulher, por exemplo. 

Você se interessou pelo tema? Este artigo (leia aqui) de Luiz Carlos Schwindt, professor titular do Departamento de Linguística, Filologia e Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica diversos detalhes desse debate. Boa leitura!


Você achou nosso texto sobre a linguagem neutra interessante? Publicamos uma série de textos sobre a intersecção entre sociedade e línguas.

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