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Como a língua materna nos conecta com nós mesmos – uma ode às nossas Mátrias

Qual a importância do idioma materno? Nossa primeira conexão com o mundo e nossas primeiras impressões vêm dali. Aqui, Pedro Monterroso divaga sobre como nossa língua materna nos torna quem nós somos.
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Como a língua materna nos conecta com nós mesmos – uma ode às nossas Mátrias

Ilustrado por Olga Trinova

Em 17 de novembro de 1999, o dia 21 de fevereiro foi proclamado pela Unesco o Dia Internacional da Língua Materna. Por ironia do Destino, ou destino da Ironia – assumindo que a Ironia tenha vontade e desígnios próprios, soberanos aos homens –, essa foi a data em que me deparei com um maravilhoso livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa.

A ideia de a língua portuguesa, em particular, ter uma função parental é descrita nos versos de Fernando Pessoa, quando este afirma que “a minha pátria é a língua portuguesa”. Já Agualusa, na sua obra Milagrário Pessoal, romance que é uma homenagem a esse idioma falado por mais de 200 milhões de pessoas, atribui à língua a designação de mátria, outorgando-lhe um papel feminino e, em especial, maternal; em contraponto com a pátria, que é o espaço geopolítico de onde um indivíduo é oriundo.

Coincidência ou não, eu, na minha qualidade de pedagogo numa escola bilíngue, vejo que as crianças, assim que chegam à escola, têm com frequência como idioma principal a língua da mãe, mesmo vivendo na Alemanha e com todo o entorno social na língua de Goethe.

Falar, por exemplo, é das manifestações mais laboriosas da língua e a primeira forma de expressão de um indivíduo. De tudo que iremos aprender nas nossas vidas, poucas coisas serão tão difíceis. A língua tem a função dialética de, ao ser aprendida, nos ajudar a aprender.

No alemão, também há uma semelhança com o português e com outras línguas neolatinas: se o espaço geopolítico se classifica como Vaterland – palavra que literalmente significa “terra pai” –, a língua, mais uma vez, é remetida para o feminino, para a mãe: Muttersprache – literalmente “língua mãe”. Respeitar e reconhecer a importância da língua é uma das melhores formas de homenageá-la. Uma das maneiras de se fazer isso é, por exemplo, reverenciando as suas palavras.

Um professor do meu tempo de faculdade fazia um apelo, a nós, estudantes, para não usarmos palavras “à toa” quando escrevíamos provas ou até mesmo no dia a dia. Há uma tendência muito comum de querermos impressionar os nossos interlocutores com palavras extravagantes. No entanto, esse nosso docente nos alertava para responder às perguntas com expressões que conhecíamos e com as quais tínhamos familiaridade. Ou seja, ao usar uma palavra cujo verdadeiro sentido não era totalmente compreendido por nós, estaríamos complicando a comunicação entre as partes e criando um ruído, obscurecendo as ideias em vez de esclarecê-las.

Aprender uma língua faz só sentido quando a usamos para nos entender e nos comunicar. Pessoalmente, pela minha experiência, não acredito que, algum dia, aprenderei outra língua como a minha língua materna. Com ela, aprendi a me comunicar, a ler, a pensar e até a brincar. Inclusive o meu nome, Pedro, faz mais sentido quando é pronunciado na minha própria língua, não só porque é um nome português – no caso, até poderia ser espanhol – mas, porque foi em português que o ouvi ser pronunciado primeiramente, daí tenho uma ligação emocional com essa sonoridade. As línguas não são apenas palavras, senão toda uma estrutura que as transcende.

No entanto, podemos adotar sempre novos idiomas, o que aumenta não só a possibilidade de comunicação com os outros, mas também a possibilidade de aprendermos mais sobre nós mesmos. Em outras línguas, há aquelas palavras novas que traduzem emoções que eu não acreditava que poderiam ser convertidas em palavras e que, em português, só as poderia descodificar com poesia.

Nesses instantes, sinto que se desfaz a neblina que dificultava a visibilidade entre uma margem e outra: essa é a beleza de conhecermos as mátrias dos outros. Para tal, além do respeito, temos que levar em conta dois fatores que a nossa mátria nos ensinou: a paciência e o envolvimento. Também diria, ainda, o amor – palavra que, pela sua força, não gosto de vulgarizar, mas há aquelas alturas em que “uma palavra vale mais do que mil imagens”.

Nota da revisora: Caetano Veloso em “Língua” (canção gravada no álbum Velô de 1984) associa mátria a língua portuguesa. Deixamos aqui com vocês o vídeo da música.

Vá além de sua mátria,

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