‘Pas mal’, ‘pas mauvais’, ‘pas terrible’: decifrando o pessimismo dos franceses em expressões corriqueiras

Decifrando o significado de ‘pas mal’, ‘pas mauvais’ e outras expressões construídas a partir da negação. Afinal, o que os franceses querem dizer exatamente quando dizem que algo “não é ruim”?
Escrito Por Piti Koshimura
28/02/2017
‘Pas mal’, ‘pas mauvais’, ‘pas terrible’: decifrando o pessimismo dos franceses em expressões corriqueiras

Esperava um entusiasmado it’s delicious ou pelo menos um enfático it’s good, mas tudo o que consegui foi um hmm, it’s not bad. Essa foi a reação do meu namorado logo que provou o prato de um restaurante que eu tinha escolhido justamente por achar a comida deliciosa. Nós nos conhecíamos fazia pouco tempo, então queria impressioná-lo com a minha “habilidade” de encontrar restaurantes bacanas, despretensiosos e gostosos. Mas, ao ouvir sua reação, pensei “ih, esse francês é difícil de agradar”.

Naquela época, apesar de estarmos em Tóquio para estudar japonês, acabamos adotando o inglês para nos comunicar, já que tínhamos mais facilidade com o idioma – afinal, a chave de qualquer relacionamento é a boa comunicação, não é mesmo? Mas sempre que ele falava que alguma coisa “não era ruim”, eu ficava um pouco decepcionada. Logo pensava que a comida não era tão boa assim ou que o filme que eu tinha sugerido não tinha nada de especial.

Depois de vivenciar algumas dessas experiências de not bad, resolvi tentar esclarecer as coisas: “o que você quer dizer exatamente quando diz que algo não é ruim?” Sua explicação finalmente me trouxe um certo alívio: conhecidos pelo seu pessimismo, os franceses esperam que as coisas sejam ruins ou desagradáveis. E, quando descobrem que a coisa não é ruim, dizem: “c’est pas mal !” (não é ruim), como se fosse uma surpresa boa. Então, de um modo geral, pas mal deve ser entendido como uma reação positiva. Dizer it’s not bad era sua forma de traduzir para o inglês todas as nuances dessa expressão francesa tão corriqueira – e ambígua.

Diferentemente do que eu imaginava, ele tinha gostado bastante do restaurante – e ele não é chato de agradar! Com esse mal-entendido resolvido, percebi que o uso que fazemos de uma segunda língua, incluindo a sua interpretação, varia de acordo com a relação que temos com nosso idioma materno e com a nossa própria cultura. Por mais que pudéssemos nos comunicar em inglês sem problemas, enquanto ele dizia it’s not bad, eu, que carrego esse otimismo natural dos brasileiros, preferia dizer it’s good ou it’s great.

Depois de começar a estudar francês, reparei que outras expressões correm o risco de ser mal interpretadas por quem tende a ver primeiro o lado bom das coisas. Todas são construídas na base da negação, com a partícula pas (a partícula ne – ce n’est pas mal – acaba desaparecendo na linguagem coloquial).

Pas mal

Tradução literal: não é mal

Geralmente é empregada de forma positiva, querendo dizer ok, bom ou, até mesmo, muito bom. Em alguns casos, pode ter a conotação de mais ou menos – tudo vai depender da entonação de quem fala.

Pas mauvais

Tradução literal: não é mau

Apesar de ser bem parecida com pas mal, ocupa um grau diferente no ranking de elogios e críticas. Usada para se referir a comida ou sabores, podemos entender como um prato que não é uma maravilha, mas que “dá pra comer”. É como se a comida não estivesse com a cara boa, mas, depois da primeira garfada, percebemos que “até que não é tão ruim assim”.

Pas terrible

Tradução literal: não é terrível / não é extraordinário

Essa expressão pode provocar confusões já que terrible significa, ao mesmo tempo, terrível e sensacional, extraordinário. Quando empregada na negação, os franceses se referem ao segundo significado, ou seja, que algo é muito ruim, quase que inaceitável. Seria o nosso “passável”.

Pas bête

Tradução literal: não é besta

Pode até parecer ofensivo alguém dizer que sua ideia “não é besta” – afinal, por que esperariam uma besteira em primeiro lugar? Estando na França, não esquente a cabeça: nas entrelinhas, isso significa que você teve uma boa ideia.

Analisar a entonação e a expressão facial de quem fala também ajuda a decifrar as nuances e sutilezas dessas expressões – muitas vezes carregadas de ironia, tão apreciada pelos franceses. Mas não se deixe enganar pela negatividade das palavras – isso é só um disfarce de uma das línguas mais charmosas do mundo.

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Piti Koshimura
Nascida em São Paulo, Piti Koshimura divide sua vida entre o Japão, a França e o Brasil. Depois de se formar em Comunicação, passou temporadas em Barcelona, Tóquio e Montpellier. Atualmente, de volta ao sul da França, a produtora de conteúdo se dedica a um mestrado em Estudos Culturais. Adora colecionar descobertas que envolvem idiomas, cultura e turismo, e compartilha boa parte delas no blog Peach no Japão.
Nascida em São Paulo, Piti Koshimura divide sua vida entre o Japão, a França e o Brasil. Depois de se formar em Comunicação, passou temporadas em Barcelona, Tóquio e Montpellier. Atualmente, de volta ao sul da França, a produtora de conteúdo se dedica a um mestrado em Estudos Culturais. Adora colecionar descobertas que envolvem idiomas, cultura e turismo, e compartilha boa parte delas no blog Peach no Japão.

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