Espanhol da Argentina, Uruguai e Paraguai: três maneiras de falar um idioma

Tudo o que você queria saber sobre as diferenças do espanhol da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, mas nunca ousou perguntar.
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ESCRITO POR Gretel Müller
Espanhol da Argentina, Uruguai e Paraguai: três maneiras de falar um idioma

Morar em Buenos Aires tem muitas vantagens. Além de ser cosmopolita, a capital argentina recebe muitos turistas — e, graças à minha hipersociabilidade, sempre tenho a chance de conversar com gente nova e fazer amizades quando vou aos meus bares e museus favoritos.

Um dos assuntos que costumam surgir nessas horas, sobretudo quando encontro pessoas que já passaram por outros países latino-americanos, é sobre o espanhol da Argentina, ou como ele é falado. “O espanhol falado aqui é muito diferente daquele que aprendi.” Sim, é mesmo um espanhol muito especial! Mas a verdade é que, dentro de um continente culturalmente tão rico como a América Latina (e de um país tão grande como a Argentina), é compreensível que os sotaques e a forma de falar não sejam as mesmas.

Muita gente diz ser difícil diferenciar o sotaque argentino do uruguaio, por exemplo. (Quem é do Uruguai tende a não gostar muito desse tipo de comentário…) Bom, como durante muito tempo, a Argentina e o Uruguai fizeram parte do mesmo território, é de se esperar que esses dois países tenham muitas histórias e costumes em comum. Porém, se analisarmos com mais atenção o espanhol falado nesses dois países podemos perceber algumas diferenças.

Diferenças entre o espanhol do Uruguai e o da Argentina

Na Argentina, para nos referirmos à pessoa com quem estamos conversando com o termo che. Já no Uruguai, dizem vo:

Argentina: – ¡Che! ¿Vamos al cine hoy?
Uruguai: – ¡Vo! ¿Vamos al cine hoy?
(Mano(a), vamos ao cinema hoje?)

Na Argentina, se usa o termo colectivo ou bondi para nos referirmos ao ônibus. No Uruguai dizem omnibus:

Argentina: Tomate el bondi, es más rápido.
Uruguai: Tomate el ómnibus, es más rápido.
(Pega o ônibus que é mais rápido.)

Quando queremos uma confirmação para algo que acabamos de dizer, acrescentamos um ¿dale? ao final da frase. No Uruguai, se usa o ¿ta?:
Argentina: Salgamos a bailar este sábado, ¿dale?
Uruguai: Vamos a bailar este sábado, ¿ta?
(Vamos dançar neste sábado, certo?)

Na Argentina, usamos a palavra pibe para nos referir a um rapaz. No Uruguai, as pessoas dizem botija:
Argentina: Los pibes de hoy sí que saben divertirse.
Uruguai: Los botijas de hoy sí que saben divertirse.
(Os rapazes de hoje sim é que sabem se divertir.)

As pessoas no chamam seus tênis de championes no Uruguai. Na Argentina, dizemos zapatillas:
Argentina: Atate las zapatillas, te vas a caer.
Uruguai: Atate los championes, te vas a caer.
(Amarra o cadarço do seu tênis senão você cai.)

Na Argentina, temos uma palavra bem típica para nos referir a amigos e familiares: boludo. Tecnicamente, é como se estivéssemos chamando nosso interlocutor de idiota. Bom, pelo menos essa seria a tradução do termo quando utilizado em um ambiente mais formal ou com uma intenção agressiva. No entanto, no dia a dia, boludo não costuma ser um insulto. Muito pelo contrário: pode até ser um jeito carinhoso de nos referir a pessoas próximas. Eu sei, parece complicado, mas, quando você vier a Buenos Aires, com certeza vai entender o que estou querendo dizer.

Exemplo: Boludo, no te puedo creer! Qué lindo está el día!
(Cara, não dá pra acreditar! Que dia lindo!)

Apesar de todas essas diferenças, o espanhol falado na Argentina e aquele falado no Uruguai têm também muitas coisas em comum. A começar pelo fato de pronunciarmos o ll e o y como se fosse o CH do português. Ou seja, palavras como playa (praia), malla (malha) e rodilla (joelho) são pronunciadas assim: placha, macha, rodicha. Se bem que, para falar a verdade, essa pronúncia não é típica de todas as províncias argentinas, mas sim de Buenos Aires e regiões vizinhas.

Exemplo: ¿Está lloviendo? Yo ni loco salgo a la calle.
(Está chovendo? Agora é que não saio pra rua.)

Outra característica comum entre argentinos e uruguaios é o uso do pronome vos, em vez de , para a segunda pessoa do singular. Aliás, o uso desse pronome também faz com que tenhamos um paradigma de construção verbal diferente daquele usado em quase todo o resto da América Latina.

Diferenças entre o espanhol do Paraguai e o da Argentina

Da mesma maneira como os argentinos do centro do país e da região de Buenos Aires têm um espanhol muito parecido ao falado no Uruguai, os argentinos do nordeste do país (de regiões como Misiones e Entre Ríos, por exemplo) falam de um jeito parecido aos paraguaios.

O espanhol falado no Paraguai é fortemente influenciado pelo guarani, o idioma dos povos indígenas originários daquela região da América Latina. O guarani é uma das poucas línguas que sobreviveram à colonização — e, junto com o espanhol, é o idioma oficial do Paraguai. Por lá, a maioria da população é bilíngue, e os dois idiomas são ensinados nas escolas.

Por tudo isso, no Paraguai existem muitas palavras, gírias e termos que são usados ​​apenas naquele país e na região fronteiriça com a Argentina. Além disso, assim como os uruguaios, os paraguaios também usam o vos.

Vejamos algumas expressões do guarani incorporadas ao espanhol falado no Paraguai:

Quando na Argentina, se tem preguiça de fazer alguma coisa, dizemos que nos da fiaca. Os paraguaios, por sua vez, dizem que estão kaigüé:
Argentina: Debería ir a una cena, pero me da mucha fiaca.
Paraguai: Debería que ir a una cena, pero estoy demasiado kaigüé.
(Eu deveria ir a um jantar, mas estou morrendo de preguiça.)

No Paraguai, a palavra ñembo é bastante usada informalmente — seria o equivalente ao medio da Argentina (ou ao meio em português):
Argentina: Mati está medio dormido esta mañana.
Paraguai: Mati está ñembo dormido esta mañana.
(Mati está meio cansado esta manhã.)

No Paraguai, a palavra gua’u é usada para questionar a credibilidade de alguma coisa. Na Argentina, seria o equivalente a dizer mirá:
Argentina: Mirá si vas a levantarte temprano vos.
Paraguai: Gua’u que vas a levantarte temprano.
(Será que você vai mesmo levantar cedo?)

Para questionarem uma decisão de modo educado, os paraguaios dizem péina. Na Argentina, usamos a palavra cómo:
Argentina: ¿Cómo te vas a levantar tan temprano?
Paraguai: ¡Péina! ¿Para qué vas a salir tan temprano?
(Como assim? Para quê você vai levantar tão cedo?)

Essas são algumas das milhares de palavras que só podem ser ouvidas no Paraguai e nas regiões vizinhas.

Mas, voltando a deixar as diferenças de lado para falar de coisas em comum, há algo que só existe nesses três países (e em algumas regiões do sul do Brasil): o mate! Sim! Argentinos, uruguaios e paraguaios adoram mate (chamado de chimarrão no sul do Brasil) — e de todos os tipos: doce, amargo, com suco, com água quente, com água fria (tererê)…

Para quem nunca tomou mate e gostaria de saber qual seu sabor e por que ele é tão consumido, posso dizer umas breves palavras: bom, por ser uma bebida à base de ervas, o mate pode ser comparado ao chá. No entanto, mais do que uma bebida, o mate é um ritual que faz parte da rotina diária de argentinos, uruguaios e paraguaios. Afinal, em todos esses países, o mate é tomado coletivamente. Se algum dia você for convidado a tomar mate, então é porque já existe um laço de amizade e confiança entre você e quem está fazendo o convite.

Deixe-se surpreender com as diferenças de outros idiomas!

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