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Brasileiros na Polônia: participei de um banquete (e coreografia) do Natal polonês

Como será que se adaptam os brasileiros na Polônia? Depois de um natal bem diferente, Joriam conta como foi sua impressão deste país tão distante.
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ESCRITO POR Joriam Philipe
Brasileiros na Polônia: participei de um banquete (e coreografia) do Natal polonês
Ilustrado por Victoria Férnandez

Em algum momento naquela noite, depois do sexto prato de peixe consecutivo, eu me peguei pensando “caramba, se essas pessoas soubessem que a gente faz self-service no Natal da minha casa, elas teriam todas um infarto”.

Há dois anos, eu comecei a namorar uma polonesa. Conforme nosso relacionamento foi evoluindo, eu fui pouco a pouco ganhando acesso a comemorações e aos rituais da família dela.

Veja bem, não estou falando de uma família de cidade globalizada como Varsóvia ou Cracóvia — estou falando de uma cidadezinha de 10 mil habitantes na borda com a República Tcheca. A típica “cidade com apenas uma praça”. De certo modo, sinto que tenho vivido a Polônia de verdade.

Mas nada me preparou para o Święta Bożego Narodzeni (em português — Natal, mas sua tradução literal seria Feriado do Nascimento de Deus). 

Foi uma experiência de fim de ano tão diferente, que achei que merecia ser contada aqui:

Fomos a uma missa de Natal — não era a minha primeira missa por lá e francamente essa não é uma experiência interessante quando você não compreende nada do que está sendo dito.

Mas nesse dia, tivemos um evento inesperado: por acaso fomos numa missa que era destinada para surdos.

Fiquei impressionado com os movimentos coreografados daquele padre — como ele conseguia falar e fazer aquela estranha dança com as mãos tão rapidamente? Pouco a pouco, fui começando a pescar alguns símbolos mais repetidos como Deus e rezar, mas os movimentos ninjas dele só me davam frações de segundo para tentar costurar uma narrativa.

Depois dessa missa frenética, fizemos o basicão: preparar os pratos e os presentes para levar para a casa dos avós.

Por volta das 18h, partimos, um frio sem igual.

Já na entrada as diferenças vieram com o avô dela, que foi um minerador durante o regime comunista da PPR (República Popular da Polônia, país que existiu entre 1947 to 1989) e por tal profissão valorizada pelos ideais do comunismo, ele recebeu um apartamento privilegiado em um prédio claramente soviético: quadrado, cinza, com ângulos retos. Na frente da grande portaria, um pequeno jardim meticulosamente cuidado e posicionado; para cada quadradinho organizado no chão, uma árvore, sendo todas exatamente da mesma altura.

Do lado de dentro, as coisas ficaram menos ameaçadoras. Um apartamento que eu considero típico de vovós e vovôs, charmoso com pisos de madeira. Vale notar que um dos banheiros tinha um chuveiro que parecia uma nave espacial da Xuxa — detalhes incompreensíveis de um país que nem existe mais.

As primeiras horas foram de papo, mas eu fui avisado que logo o Natal com N maiúsculo realmente começaria.

E começou… a coreografia. Primeiro uma sopa.

Todos os familiares mais distantes estavam curiosos e francamente encantados com a minha presença alienígena. Me perguntaram se eu conseguia adivinhar qual era o ingrediente principal da sopa. O gosto era familiar, mas não óbvio.

Chutei frango, errei! Era peixe.

Quando todos terminaram, outra sopa veio. Mesma interação. Era outro peixe.

Imagine um japonês ou um tailandês indo numa churrascaria rodízio pela primeira vez e demorando cerca de vinte minutos para entender que realmente não haveria nenhum outro ingrediente senão carne. Pois é, assim eu me senti no meu novo universo marítimo.

No natal Polonês, a comida nunca varia: são sempre os mesmos 12 pratos e você deve comer (pelo menos um pouquinho) de cada um deles. Onze deles são feitos de peixe.

Uns eram bem normais para a minha mente brasileira: como um salmão grelhado com limão. Outros eu nem soube por onde começar como Karp w galarecie — uma espécie de pudim de carpa, difícil de explicar.

Um costume mórbido: aparentemente se você se levantar da mesa antes do fim da celebração de Natal, a superstição diz que você será o primeiro a morrer. Eita! Por isso antes do começo dessa dança dos pratos, tudo foi meticulosamente posicionado para que pudéssemos pegar os pratos seguintes sem nos levantarmos da cadeira. Os peixes todos a um braço de distância em outras mesas em volta da mesa de jantar.

Com uma barriga que devia parecer Fernando de Noronha, achei que as particularidades do Natal estavam chegando ao seu fim. Não estavam.

É uma coreografia — com o fim dos pratos, o começo de outra coisa.

O Opłatek veio, uma espécie de biscoito retangular. Me foi explicado que agora eu teria que ir até todos os membros da família (nós já podíamos ficar de pé), nós trocaríamos bons desejos para o ano vindouro e partiríamos e comeríamos um pequeno pedaço do biscoito do outro como uma representação física dos nossos bons desejos.

Uma tradição incrivelmente fofa que acabou sendo um pouco desperdiçada comigo pela minha falta de conhecimento de polonês — já me prometi que da próxima vez eu vou entender pelo menos metade. Acabei trocando votos falando em português mesmo, já que a maioria dos membros também não falavam inglês. Mas, mesmo com esse empecilho, garanto que a fofura não foi diminuída.

Sentamos e começamos a beber. Agora, sim, ha! Agora, sim, o Natal chegou a seu fim.

De um lado da mesa soa um canto retumbante. Minha expressão de confusão e susto não se conteve.

Era o avô, começando… a cantar.

Era o começo do Chór, o tradicional coral de Natal. Hollywood nos mostra as imagens das crianças batendo de porta em porta para fazer uns trocados — aqui a cantoria acontece em casa, tem uma lista da músicas bem definida e tem hora para começar.

Não deu para deixar de notar as diferenças na qualidade: o pai dela tinha tido uma banda de rock na adolescência e cantava num tom impecável. O irmão de quatorze anos, bem naquele período da troca da voz, fez um trabalho… digamos, “sub-ótimo”.

Assim mesmo, fiquei pensando que se minha família tentasse cantar harmoniosamente, acho que até as músicas dos Mamonas Assassinas sairia um desastre.

Daí finalmente trocamos os nossos presentes.

Por mais que os presentes tenham sido um momento divertido, depois de todo esse meticuloso ritual, eles não pareciam mais o centro da celebração como muitas vezes eu sinto na minha própria família. Foi apenas um extra! O foco real foi nas conversas e nas trocas de votos.

Na minha opinião, um Natal mais de verdade e menos de presente.

Esse foi um Natal inesquecível: a coreografia de pratos e atividades impressionou pela sua ordem e estrutura. Nos meses seguintes, comentando com outros poloneses, eles mencionam os mesmos 12 pratos e a mesma cantoria.

Uma celebração bem diferente da nossa, mas nem por isso menos amorosa ou menos interessante, apenas vinda de um passado distinto.

Da próxima vez, preciso levar na bagagem um pouco de polonês.

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