Por que a Babbel ensina linguagem inclusiva

Para comemorar o Mês do Orgulho LGBTQIA+, a equipe de especialistas em idiomas da Babbel reflete sobre como faz para garantir a diversidade na representação de raças, gêneros e orientações sexuais nos nossos cursos.
Escrito Por Zach Sporn
02/07/2020
Por que a Babbel ensina linguagem inclusiva

A Babbel acredita que a diversidade da nossa equipe e da nossa comunidade nos torna mais fortes. É essencial que as experiências das pessoas que aprendem com a Babbel reflitam esse valor central. Os cursos da Babbel são criados por especialistas em idiomas, que desenvolveram diretrizes específicas e detalhadas para assegurar a representação da diversidade em todos os idiomas. Para comemorar o Mês do Orgulho LGBTQIA+, eu conversei com Lars e Vitor, editores na equipe de Didáticos da Babbel e cocriadores da série vencedora de prêmios Stranger Talks, sobre como a Babbel aborda temas LGBTQIA+ (sigla que abrange lésbicas, gays, bi, trans, queer/questionando, intersexo, assexuais e outras identidades) nos nossos cursos.

Criando conteúdos inclusivos no ensino de idiomas

Vamos começar pelo básico. O que “conteúdo inclusivo” significa em termos de identidade de gênero e orientação sexual, especialmente no contexto de meios educacionais como um aplicativo de idiomas? 

Homens homossexuais

Vitor: Para mim, significa objetividade. Não existe uma pessoa “padrão” ou “normal”. As pessoas que aprendem com a Babbel são diversas, assim como as falantes nativas dos idiomas ensinados pela Babbel. Portanto, uma representação fidedigna deve mostrar essa diversidade. Do ponto de vista educacional, é importante que o conteúdo de aprendizagem se relacione com as experiências de quem está aprendendo. Eu tenho mais chances de sucesso ao aprender um idioma se eu conseguir me imaginar nas situações retratadas nos materiais que estou usando, independentemente da minha raça, gênero ou orientação sexual.

Lars: Isso mesmo. Nós representamos um grupo incrivelmente diverso de pessoas que aprendem idiomas ao redor do mundo; conforme elas aprendem com as lições da Babbel, elas devem poder se identificar com o que veem no aplicativo. Fazendo isso, nós representamos a nós mesmos, como Babbelonians, e os nossos valores. Por fim, nos nossos cursos, representamos diferentes países, culturas e tradições ensinando uma linguagem autêntica, conforme ela é usada em contextos autênticos. 

Em vez de oferecer uma seleção de lições específicas com temas LGBTQIA+, o conteúdo de aprendizagem da Babbel integra casais do mesmo sexo e de orientações sexuais e identidades de gênero diversas de forma natural e direta nos nossos cursos.

Vitor: Novamente, é uma questão de objetividade. É mais provável que você veja um casal lésbico indo ao cinema, não desfilando na rua com uma bandeira arco-íris. Casais com diferenças de idade grandes e pequenas provavelmente costumam discutir sobre as mesmas coisas, se vão pedir pizza ou sushi, por exemplo. Divergir muito ou pouco do que é considerado “padrão” é a regra, não a exceção. Então por que faríamos um estardalhaço sobre isso?

 Mulheres homossexuais

Uma representação diversa e realista de um amplo espectro de sexualidades e gêneros é importante para você, pessoalmente? 

Vitor: Sim, é muito importante para mim, pois acredito que todo mundo se beneficia de um mundo mais inclusivo. No trabalho, faço um esforço consciente para que os cursos que criamos sejam consistentes com essa filosofia. Estou convencido de que isso também é importante para quem está aprendendo, primeiro, porque é moralmente correto e, segundo, porque uma experiência de aprendizagem inclusiva é mais eficaz, como disse anteriormente. 

Lars: Sua pergunta me faz lembrar de uma citação de um filme russo bem conhecido, A Ironia do Destino. Em uma cena, um casal está falando sobre suas profissões. Ele é médico, ela é professora.

Ele: Os erros dos médicos custam muito caro para as pessoas. 

Ela: Sim… Os erros dos professores são menos visíveis de imediato, mas no fim são igualmente caros. 

Isso mostra como nós, educadores e educadoras, podemos impactar a vida inteira de estudantes, não apenas suas competências linguísticas. Quem aprende com a gente confia na nossa expertise, não só no sentido pedagógico. Por isso, é importante para nós refletir a diversidade do nosso mundo, mesmo que isso seja desafiador às vezes. Falando dos desafios que você e colegas enfrentam nessa missão, o que tem sido difícil para você?

casais gays

Lars: Eu acredito que a linguagem molda a realidade. É por isso que, como especialistas em idiomas, nossa tarefa é mostrar a diversidade da sociedade por meio do idioma: os riscos são altos!

Durante a criação dos cursos de russo de Babbel, me deparo frequentemente com um dilema: Devo retratar a Rússia conservadora vista por turistas que viajam principalmente pelas províncias russas, ou devo retratar uma imagem de aspiração de uma Rússia democrática, com uma sociedade aberta, diversa e inclusiva? Isso, sem dúvida, existe de certa forma, mas é uma minoria. Tento capturar uma mistura dessas duas imagens distintas. 

Outro desafio ocorre quando estou procurando imagens para os cursos de russo. Por razões legais, não podemos usar fotos privadas no conteúdo. E na Rússia, há mais de 180 grupos étnicos e nacionalidades. Como posso representar essa imensa diversidade de etnias usando somente bancos de imagens? 

Reinventando o “casamento” em russo

Lars, você inventou uma nova forma de falar sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo em russo, um idioma cuja própria gramática impedia essa possibilidade. Por que e como você fez isso? 

 casais de lésbicas

Lars: O russo é infelizmente, do meu ponto de vista um idioma que marca muito os gêneros. Falantes de russo devem, constantemente, decidir entre as formas femininas ou masculinas não apenas de substantivos e adjetivos, como também de certos verbos. Nos nossos cursos, nós ensinamos a gramática correta do russo, a qual é, do meu ponto de vista sociopolítico, muito conservadora e sem neutralidade de gênero. Nós não podemos “reformar” o idioma nos nossos cursos. Contudo, nós enxergamos uma chance de mostrar como o russo ainda pode ser flexível o suficiente para expressar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, apesar das limitações inerentes à estrutura do idioma. Na Copa do Mundo de 2018, sediada na Rússia, a Babbel lançou a campanha #BabbelForAll.

Em russo, na linguagem coloquial, há duas expressões diferentes para dizer “Eu sou casado ou casada”. A mulher casada diz: Я замужем. Que significa, literalmente: Eu estou atrás do meu marido. Por outro lado, a frase Я женат (que significa “Eu sou casado”, mas no sentido de “Eu tenho uma esposa”) só pode ser usado por homens. O que significa que para casais lésbicos e gays, não há uma maneira de expressar seu casamento com uma pessoa do mesmo gênero. 

Tive a ideia de adicionar a terminação -a, que na gramática russa indica a forma feminina, p. ex., em substantivos, nomes, sobrenomes. Essa forma gramatical Я жената não existe no idioma russo, mas nós imaginamos um jeito de ela existir. 

Entre todas as reações que campanha recebeu, fiquei entusiasmado com a discussão calorosa que começou na página da Babbel no Facebook entre as pessoas falantes nativas de russo. Algumas escreveram indignadas que a Babbel havia cometido um erro gramatical nos outdoors, mas outras entenderam nossa mensagem política. Eu adorei! A mudança de uma só letra em um contexto específico pode levar à mudança de consciência.

Falando sobre a reação do nosso público, o jornalista Niko Lang tuitou recentemente sobre a experiência dele ao se deparar com a imagem de um casal gay nos nossos cursos de russo. Como você se sentiu ao ler o tuíte dele?

jornalista Niko Lang

Lars: Eu fiquei muito emocionado porque o Nico entendeu nossa mensagem. Agora eu percebo que até as escolhas aparentemente pequenas que fazemos como editores de cursos podem ter um impacto grande.

Nós acrescentamos essa imagem e usamos a frase intencionalmente: foi uma mensagem política forte integrada a um exercício curto. Em primeiro lugar, é proibido ser abertamente gay na Rússia (por causa da chamada lei de “propaganda gay”), e em segundo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é ilegal.

Nós temos consciência do potencial de fazer um pinkwashing superficial. Para evitar isso, integramos mensagens curtas, porém fortes. Por exemplo, no curso Russo para o cotidiano na lição Conte-me sobre a sua família, apresentamos o vocabulário com a imagem de duas mães. Pode ser que digam que não é ousado o suficiente, mas no contexto da situação política atual na Rússia, é bastante provocador.

 pais gays

Assegurando a diversidade na representação de raças, gêneros e sexualidades nos cursos da Babbel

Vitor, você desenvolveu e moldou as diretrizes da Babbel para criar conteúdos inclusivos. Você poderia falar um pouco sobre esse processo?

Vitor: A gente tem a tendência de apresentar o que conhece bem e de se esquecer das outras partes da sociedade. O objetivo dessas diretrizes é nos tornar conscientes dos nossos próprios preconceitos e nos ajudar a superá-los. Assim como com tudo que fazemos, as diretrizes de diversidade são um trabalho em andamento. Eu entrei na Babbel cinco anos atrás, e desde o começo nós discutimos a representatividade no nosso conteúdo. Desde então, vi como discussões acaloradas, mas informais, se tornaram apresentações formais para a equipe, o que então evoluiu para os nossos padrões de qualidade atuais. 

Essas diretrizes abordam vários aspectos para assegurar representações diversas e inclusivas, de como escrever diálogos a como selecionar imagens para ilustrar novas palavras e frases. Por exemplo, queremos evitar mostrar mulheres fazendo só atividades estereotipadas, como tarefas domésticas, fofocando, fazendo um monte de compras etc. As mulheres também devem ser representadas como profissionais de alto escalão ou jogadoras de futebol. Outro exemplo é a nossa representação de casais do mesmo sexo: alguns casais podem ser interraciais, ter crianças ou uma considerável diferença de idade. Categorias são úteis como um meio de expressar a ideia de que, no final das contas, as pessoas são infinitamente diversas e únicas.

Foi fácil implementar essas diretrizes na Babbel? Que conselho você daria para alguém que quer criar diretrizes semelhantes para assegurar uma representação diversa na própria empresa?

Vitor: Para mim, o mais importante é criar uma cultura de discussões e debates construtivos, na qual todo mundo se sente seguro para fazer perguntar e expressar discordâncias. Outro elemento-chave é a paciência: discussões levam tempo, não é fácil chegar a um consenso. Isso é parte do processo e é importante saber lidar com suas expectativas do que pode ser alcançado e quando. 

Com certeza, nossas políticas ainda são um trabalho em andamento, e as pessoas têm pontos de vista diferentes; para mim, isso é algo a ser celebrado.

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Zach Sporn
Zach nasceu no bairro do Queens, em Nova York, mas já morou em Montreal, Budapeste e, há 6 anos, reside em Berlim. Na Babbel, sua função é facilitar o intercâmbio de conhecimento entre seus colegas e pesquisadores de diversas áreas acadêmicas, como linguística e economia. O que Zach gosta de ouvir? Muito rap dos anos 90, funk dos anos 80 e clássicos do soul.
Zach nasceu no bairro do Queens, em Nova York, mas já morou em Montreal, Budapeste e, há 6 anos, reside em Berlim. Na Babbel, sua função é facilitar o intercâmbio de conhecimento entre seus colegas e pesquisadores de diversas áreas acadêmicas, como linguística e economia. O que Zach gosta de ouvir? Muito rap dos anos 90, funk dos anos 80 e clássicos do soul.

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