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Línguas secretas, amores discretos: "argots queer" ao redor do mundo

Em todo o mundo, pessoas *queer* desenvolveram formas de comunicar-se entre si sem que pessoas de fora as entendam. Como são essas línguas secretas?

Ilustração por Jana Walczyk

Aqui entre nós…

Sabe aquelas pessoas com as quais você divide um monte de piadas e referências internas? A ponto de quem está de fora não entender quase nada quando vocês conversam? Essa forma de comunicação quase telepática, além de divertida, tem suas vantagens. Afinal, às vezes a gente está com a língua coçando para fazer um comentário, mas tem de se controlar por causa de outras pessoas que estão por perto.

Não é só com amigos que a gente compartilha uma forma própria de falar. Algumas gírias, por exemplo, são típicas de uma geração, uma profissão, uma região, etc. Certos grupos, porém, usam uma linguagem tão própria que ela se torna quase uma língua "secreta", que ninguém de fora consegue entender. Esse tipo de linguagem tem um nome – argot (pronúncia: ar-gô).

Dando pinta

Um dos muitos grupos que possuem um argot próprio é a comunidade queer, ou seja, pessoas que fogem do que é considerado padrão devido à sua identidade de gênero e/ou à forma como expressam sua afetividade. Isso não chega a ser uma surpresa se pensarmos na discriminação e marginalização que essas pessoas sofreram e sofrem. Afinal, quando você não tem a liberdade de falar sobre sua identidade e suas formas de afeto em qualquer lugar, é preciso inventar uma língua "alternativa" para se comunicar com quem também está passando pelas mesmas coisas que você. O interessante é que isso não se restringe somente ao seu círculo de amizades. Soltar uma ou outra palavra do argot durante uma conversa com pessoas desconhecidas e ver como elas reagem pode ser uma forma sutil de descobrir se elas também são entendidas… o que pode ser o início de uma amizade ou até mesmo de um romance.

Nós já falamos sobre argots aqui na Babbel Magazine e mencionamos o polari, um argot queer falado na Inglaterra. Que tal dar uma olhada em argots de outros países?

Brasil

O argot queer brasileiro é chamado pajubá, ou bajubá. Ele é falado em praticamente todo o país, com poucas variações regionais. Apesar de ser fortemente baseado no português, ele incorpora muitos elementos das línguas iorubá. O motivo é que algumas religiões afrobrasileiras, fortemente influenciadas pela cultura iorubá, são relativamente abertas a pessoas queer, oferecendo um espaço onde essa comunidade pode se expressar mais livremente.

Algumas dessas palavras são conhecidas por grande parte dos brasileiros como, por exemplo, erê, que significa criança. Já outras palavras são menos óbvias, como aqué (dinheiro) e alibã (policial). Outra característica bem marcante é o uso frequente de nomes femininos. Dar a Elsa, por exemplo, significa roubar. Esses nomes são inspirados em telenovelas, cantoras e atrizes famosas, etc. Algumas palavras e expressões do pajubá têm ficado cada vez mais conhecidas fora da comunidade queer devido ao seu uso na mídia e ao crescimento da pesquisa acadêmica a seu respeito. Há, inclusive, um dicionário do pajubá. Seu nome é Aurélia, uma brincadeira com o nome do famoso dicionário Aurélio.

Turquia

Assim como o pajubá, o lubunca – o argot queer falado na Turquia – também tem se difundido cada vez mais fora da comunidade queer. Esse argot se baseia em muitas das línguas minoritárias faladas no país, como o grego, o curdo e o búlgaro. Contudo, a grande maioria das palavras vem do romani, idioma falado por uma das comunidades mais marginalizadas dentro e fora da Turquia, os roma. Essa influência do idioma romani se explica, por um lado, pela experiência de marginalização comum aos dois grupos. Essa proximidade acaba se manifestando também na linguagem. Por outro lado, nem sempre faz sentido falar em dois grupos, já que muitas pessoas são romani e queer ao mesmo tempo. Afinal, fazer parte de uma minoria não impede você de também ser parte de outra, não é mesmo?

África do Sul

Os argots queer não são completamente diferentes da língua majoritária do lugar onde são falados. Pelo contrário, apesar de se apropriar de termos de outras línguas, a gramática costuma ser a mesma da língua "oficial". O que acontece, então, em países onde há várias línguas oficiais? Um ótimo exemplo é a África do Sul que, além de ter sido o primeiro país africano (e um dos primeiros do mundo) a legalizar o casamento igualitário, possui nada menos do que onze línguas oficiais. Calma, já vou adiantando que lá não existem onze argots queer. Existem, porém, dois, reflexo das divisões raciais históricas do país.

O gayle surgiu na década de 1950 e é falado sobretudo pela comunidade branca ou de ascendência mista. Ele se baseia no inglês e no afrikaans e incorpora diversos termos vindos do polari britânico e gírias queer estadunidenses. O que é interessante no gayle é que, assim como o pajubá, muitas palavras são, na verdade, nomes femininos. Em alguns casos, esses nomes são bem parecidos com os termos em inglês que representam. Monica, por exemplo, vem de money (dinheiro); Priscilla, de policeman (policial); e Jessica, de jewellery (joias). Já o termo gail, de onde o nome do argot deriva, significa bate-papo.

A comunidade negra sul-africana também possui seu argot próprio, o isiNgqumo. Seu nome vem de um termo do próprio argot e significa decisões. O isiNgqumo é baseado em algumas línguas nguni, um grupo dentro das línguas bantu. Comparado ao gayle, porém, ele ainda não foi muito estudado e documentado. Essa diferença entre os dois argots sul-africanos reflete, assim, as tensões raciais presentes na história do país e que infelizmente se mostram mais fortes que a experiência compartilhada por pessoas queer.

Indonésia

Se na África do Sul temos onze línguas oficiais e dois argots, como são as coisas na Indonésia, onde são faladas – literalmente – centenas de línguas? Por incrível que pareça, lá só existe um grande argot queer, chamado de bahasa gay. Ou bahasa banci. Ou bahasa bengcong. Ou bahasa binan. A complicação com o nome da língua revela um pouco do processo de criação novas palavras nesse argot. Uma forma muito comum, por exemplo, é simplesmente adicionar -ong ao fim da palavra. Desse modo, "banci", que significa mulher trans, se torna "bancong". Daí que vem o nome "bahasa bengcong" (Ok, também mudaram um pouco a ortografia).

Uma outra maneira de formar palavras é adicionar -in- entre as sílabas, mais ou menos como na nossa língua do P. “Banci", para continuar usando o mesmo exemplo, se torna "Binancin" (sim, parece nome de remédio). É a partir da versão simplificada de "binancin" que vem o outro nome do argot, bahasa binan. Achou tudo super confuso? Nem esquente a cabeça. Afinal, argots são feitos justamente para confundir quem está de fora, não é mesmo?

Separar ou unir?

Ao compartilhar uma linguagem e referências culturais, pessoas queer acabam por se sentir mais próximas, mais unidas. Por isso, pode-se dizer que o argot serve para unir quem o conhece. Por outro lado, se todo mundo entendesse tudo, não seria mais um argot, não é? Afinal, argots existem justamente para separar um grupo do resto da sociedade e criar um espaço privado.

À medida que argots se tornam mais conhecidos – inclusive por causa de artigos como este – uma pergunta se torna inevitável: será que essa divulgação realmente é desejável? Por um lado, argots são uma porta de entrada para um universo social e cultural extremamente rico. É compreensível que outros grupos também queiram ter acesso a tudo isso. Por outro lado, a aceitação de certas palavras ou expressões é mais rápida que a aceitação do modo de vida de quem originalmente as criou. E no fim das contas, argots não são somente divertidos, eles são, de certo modo, necessários para quem sofre discriminação. Qual é a saída? Compartilhar ou não compartilhar, documentar ou não documentar? O problema está longe de ter uma solução simples. Até porque enquanto uns escrevem dicionários, outros inventam novas palavras.

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