Pequeno guia sobre o complexo tópico dos pronomes de gênero neutro

Recentemente, they foi reconhecido como pronome singular de gênero neutro pelos maiores dicionários e manuais de estilo da língua inglesa. E em outros idiomas?
Escrito Por Steph Koyfman
Pequeno guia sobre o complexo tópico dos pronomes de gênero neutro

O inglês, como um todo, é bem mais neutro do que outros idiomas. O inglês não designa artigos masculinos ou femininos aos substantivos, e o uso de they no singular é, na verdade, mais antigo do que se imagina — muito anterior à discussão sobre os pronomes de gênero neutro.

O uso de they como pronome singular data do século 14 e pode ser encontrado nas obras de grandes nomes como Geoffrey Chaucer, Jane Austen e Lord Byron. No século 18, esse uso foi contestado por especialistas sob o pretexto de que a gramática inglesa deveria refletir a gramática do latim. Consequentemente o uso de they como pronome singular foi desencorajado na educação de língua inglesa. Porém, como bem sabemos, they como pronome singular nunca saiu de uso na linguagem falada coloquial. Em parte, é por isso que o pronome singular they  ganhou mais legitimidade, sendo incluído no Oxford English Dictionary, considerado a Palavra do Ano de 2015 da American Dialect Society e reconhecido oficialmente no AP Style Guide.

Quando a sociedade muda, o idioma também muda para refletir seus desenvolvimentos.

Obviamente, a maior diferença entre o século 14 e o século 21 é que os pronomes de gênero neutro não são mais simplesmente uma forma de descrever uma pessoa não especificada, como também uma maneira de afirmar as identidades das pessoas queer, transgênero, intersexo e não binárias.

“Espero que as pessoas comecem a entender que não é uma questão de acomodar os ‘caprichos’ de alguém, mas sim que a identidade de gênero é parte essencial da personalidade da pessoa” explicou Nicki Hinz da Equipe de Didática da Babbel em um artigo no blog. “Isso forma nossa identidade social. Quando a sociedade muda, o idioma também muda para refletir seus desenvolvimentos.”

Esse movimento não é exclusivo das comunidades de língua inglesa. Vários idiomas também estão estabelecendo seus próprios pronomes de gênero neutro. A aceitação desses pronomes por suas respectivas sociedades pode variar bastante, abrangendo um espectro que vai do “uso experimental” ao “uso praticamente oficializado”. Controvérsias acompanham todos esses pronomes e quase todos exigem observações e contextos adicionais.

Para resumir: não há uma abordagem simples para os pronomes de gênero neutro, porém, nós tentamos trazer aqui um guia simplificado de pronomes inclusivos em diversos idiomas.

pronomes de gênero neutro

Pronomes de gênero neutro em diversos idiomas

Alemão

Na Alemanha, há um debate intenso na atualidade sobre a possibilidade ou não de neutralizar o sistema de substantivos de três gêneros. O dialeto Niederdeutsch consegue fazer isso eliminando der (artigo masculino), die (artigo feminino) e das (artigo neutro) em favor do de. Quanto aos pronomes, é possível encontrar pessoas que usam sier ou xier, mas a maioria da população alemã provavelmente não deve entender esses pronomes fora dos espaços queer e ativistas.

Sueco

O sueco, assim como inglês, praticamente não marca os gêneros, mas o relativo sucesso da adoção de hen é um caso interessante a ser estudado. Quando foi introduzido nos anos 1960, o uso de hen encontrou bastante ceticismo, incluindo de linguistas que se preocupavam principalmente com a clareza do discurso. Porém, com o tempo (e especialmente durante os anos 2000), hen ganhou força como pronome para pessoas não binárias e, após um auge na atenção midiática e em debates públicos em 2012, o pronome entrou no dicionário sueco SAOL em 2015. Hoje, o pronome é usado na mídia, no parlamento, em conversas casuais e documentos oficiais. E o mais importante: quase todo mundo na Suécia entende a palavra e ela não levou à falta de clareza que linguistas temiam.

Francês

Em francês, ainda não há pronomes de gênero neutro estabelecidos oficialmente. Os pronomes listados no infográfico são os pronomes de gênero neutro mais usados dentro da comunidade, mas poucas pessoas entendem esses pronomes fora dos espaços ativistas.

Russo

O russo é outra língua que não tem um pronome de gênero neutro bem estabelecido. Algumas pessoas não binárias na Rússia usam o pronome masculino он porque ele se alinha com outros termos que são mais neutros, algumas comunidades feministas usam o pronome feminino como padrão para todos os gêneros e separam o sufixo feminino com “_”, e há pessoas que usam o pronome da terceira pessoa do plural они. Outra opção é alternar entre os pronomes masculino e feminino e os tempos verbais, usando o neutro оно (que normalmente não é usado para se referir a pessoas) ou criando uma terminação nova para o verbo no pretérito. Para saber mais, clique aqui e aqui.

Espanhol

O movimento para uma linguagem mais neutra em espanhol tem levado a várias inovações linguísticas no últimos anos. Entre elas: o uso do símbolo @ como uma alternativa às terminaçõeso e a. O uso de Latinx nas Américas em vez de Latino ou Latina ganhou bastante força e reconhecimento institucional recentemente, apesar de críticas afirmarem que esse termo é mais usado nos Estados Unidos do que na América Latina.  Embora elle não seja tão usado como pronome de gênero neutro, sem dúvida, o interesse por pronomes pessoais alternativos está crescendo. Para saber mais sobre a neutralidade de gêneros em espanhol, clique aqui.

Português

Em português, está se tornando mais comum trocar as terminações masculina (o) e feminina (a) pela terminação neutra (e). Tanto no Brasil quanto em Portugal, não há um pronome de gênero neutro bem definido. Raramente a identidade de gênero é expressa de forma direta. Porém, na comunidade gay, alguns membros referem a si mesmos com pronomes femininos, apesar de não se identificarem como mulheres. Com frequência, os pronomes masculinos e femininos são alternados de forma aleatória. Isso pode confundir as pessoas que não fazem parte da comunidade, porém também desafia os limites da categorização binária de gênero e sexualidade. No Brasil, o Pajubá é como se fosse uma linguagem “secreta” de algumas pessoas queer, trazendo elementos dos idiomas da família iorubá. Nesses idiomas, a idade tem um papel muito maior do que o gênero.

Italiano

Infelizmente o idioma italiano não tem pronomes neutros para expressar descrições não binárias. O uso do plural é evitado devido a implicações culturais: ele é, na verdade, considerado elitista na linguagem cotidiana. Isso porque loro (pronome da terceira pessoa do plural), durante os séculos, foi usado de uma maneira extremamente formal, para se referir à realeza ou a pessoas das classes sociais mais altas. A questão da linguagem não binária é um tópico de discussão atual na comunidade LGBTQ+, que introduziu o uso do * na linguagem escrita para evitar a declinação (sobretudo como uma ato de ativismo), mas na linguagem falada, ainda não foi encontrada uma solução. Em conclusão: usar o plural como uma tradução literal de they não é a solução e só causa mais desentendimentos. Para saber mais, clique aqui.

Descubra mais curiosidades sobre um novo idioma!
Author Headshot
Steph Koyfman
Steph é uma escritora que adora dançar lindy hop e pratica astrologia nas horas vagas. Ela também é uma nova-iorquina e cresceu bilíngue, ama livros e adora idiomas. Estudou jornalismo e Letras em Boston, e também fala russo e espanhol, mas admite que anda um pouco enferrujada nessa frente.
Steph é uma escritora que adora dançar lindy hop e pratica astrologia nas horas vagas. Ela também é uma nova-iorquina e cresceu bilíngue, ama livros e adora idiomas. Estudou jornalismo e Letras em Boston, e também fala russo e espanhol, mas admite que anda um pouco enferrujada nessa frente.

Artigos recomendados

Linguagem LGBTQ+ e a Busca por Termos Inclusivos

Linguagem LGBTQ+ e a Busca por Termos Inclusivos

A Linguagem LGBTQ+ vem conquistando espaço graças ao processo natural de inclusão de grupos de pessoas que não se identificam com o sistema binário (e linguístico) tradicional.
Escrito Por Dylan Lyons
Línguas secretas, amores discretos: O pajubá e o dialeto gay ao redor do mundo

Línguas secretas, amores discretos: O pajubá e o dialeto gay ao redor do mundo

Em todo o mundo, pessoas *queer* desenvolveram formas de comunicar-se entre si sem que pessoas de fora as entendam. Como são essas línguas secretas?
Por que a Babbel ensina linguagem inclusiva

Por que a Babbel ensina linguagem inclusiva

Para comemorar o Mês do Orgulho LGBTQIA+, a equipe de especialistas em idiomas da Babbel reflete sobre como faz para garantir a diversidade na representação de raças, gêneros e orientações sexuais nos nossos cursos.
Escrito Por Zach Sporn