Como cuidar da saúde mental com idiomas

Já pensou em cuidar de sua saúde mental através de idiomas? Explicamos como estimular o cérebro e fazer outras conexões apenas refletindo sobre línguas.
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ESCRITO POR Joriam Philipe
Como cuidar da saúde mental com idiomas

Ontem você pensou nas contas e os compromissos. Sobre a lista de compras do supermercado. Sobre a sua senha do facebook e as meias que você não lavou.

Mas, em algum momento, você pensou sobre o outro lado das coisas.

Você filosofou internamente sobre os(as) escritores(as) famosos que entram em depressão. Você projetou mundos onde cristais são abundantes e as pessoas constroem casas de ametista. Você imaginou um prédio consciente, observando os pequenos humanos entrando e saindo de suas diversas bocas.

Talvez você tenha visto o último episódio da série Black Mirror e tenha continuado com o episódio na sua cabeça. Imaginando um roteiro do que aconteceria com os personagens mais à frente.

Talvez você tenha só espiado o céu e sua mente tentou visualizar como o mundo seria se as nuvens fossem vermelho sangue.

Mas ninguém perguntou para você sobre nada disso.

Tudo o que perguntaram foi “como foi o seu dia?” e “como vai você?”.

As casas de ametista, o episódio B, as nuvens escarlates — todas obras suas que, sem ter nenhuma outra mente para se expandir, acabaram por não provocar as boas conversas por que todo mundo tanto anseia.

Como diria a grande pensadora Silvia Zuur: “nós crescemos na direção das perguntas que fazemos”. Mas a verdade é que não paramos muito para pensar na qualidade e principalmente na intenção dessas perguntas.

Se todo mundo tirasse um dia para expandir seu leque de “perguntas normais”, nós viveríamos num mundo bem diferente. E, sua saúde mental agradeceria. 

Mas às vezes é difícil entender esse processo. Não tema! Eu posso contar uma história para clarificar:

Estado de espírito — que espírito?

Um grande amigo estava para se mudar de país. Eu apoiei essa aventura desde o primeiro momento, mas também fiquei preocupado com a nossa comunicação.

Estudamos juntos a vida inteira. Jogamos bola ou batemos papo quase todos os dias por 11 anos consecutivos. Por mais que ambos fizéssemos parte da primeira geração com internet aplicada diretamente na veia, esse duo não estava acostumado a usá-la.

Bolamos um plano simples: um e-mail longo a cada 10 dias. Volta e meia podíamos nos ligar, outra hora podíamos jogar algum jogo on-line juntos, mas o e-mail seria sagrado. Tão sagrado que merecia um nome… mas qual?

Pensamos juntos por alguns dias e chegamos a um nome interessante. A expressão em português estado de espírito, quando traduzida para o inglês (e meu amigo estava indo morar nos Estados Unidos), passava por uma mutação interessante: state of mind. Ao pé da letra, seria estado da mente.

Usamos essas expressões para definir os nossos e-mails e também o tom das nossas mensagens. Mais à frente, quando outras mudanças continentais aconteceram, a essência desse título foi mantida. A pergunta perene sempre era: agora que você está longe de casa, como você sente a metamorfose que está acontecendo dentro de você?

Na minha humilde opinião, uma pergunta bem mais interessante do que “tudo bom?”.

De certa forma o nosso tom acompanhava as línguas. Nossos espíritos podiam ser transformados em mentes, nossas ressacas em gargantas de madeira (do francês gueule de bois), nossas universidades em grandes aprendizados (do japonês daigaku).

Muitas vezes era uma palavra diferente que levava a gente a entender as mudanças no nosso comportamento. A transformação ganhava um “vaso”, uma maneira de se tornar presente para a gente cutucar.

Assim nós fomos afiando nossas perguntas de uma maneira que os e-mails mereciam ser cada vez mais longos.

Você, you, du, toi

Muitas pessoas poliglotas relatam essa mesma sensação de que quando você muda de língua, você também troca de personalidade. Algumas mudanças são bem evidentes: alguns barítonos em português magicamente se tornam tenores em húngaro.

Outras mudanças são mais sutis: você pode se tornar uma pessoa mais quieta, mais criativa, mais obstinada, mais rude e muitas outras mudanças esquisitas. Às vezes, pensamos até que ficamos um pouco loucos, que a saúde mental foi para o espaço com tantos idiomas na cabeça. Mas, é justamente o contrário que acontece. 

Por mais que exista uma nota de mistério nesse processo, uma parte dele é fácil de entender — como as línguas apresentam caminhos distintos para se expressar uma mesma ideia, a ideia nunca é exatamente igual. Não existe tradução perfeita, pois as línguas carregam seus contextos.

Por exemplo, as línguas latinas só possuem os gêneros masculino e feminino enquanto outras, como o alemão e o inglês, têm palavras de gênero neutro. A maneira como as culturas enxergam gênero vai ser alterada por essa diferença.

Imagine isso: o ano é 2095, androides já se tornaram normais, mas algumas coisas ainda estão em adaptação. Em Munique, qualquer restaurante vai ter um banheiro gênero neutro destinado a eles (eles? talvez elxs); por outro lado em Buenos Aires, esses mesmos androides precisarão decidir por um gênero para fazer xixi.

Claro que esse é um exemplo bobo e brincalhão, mas o impacto que nossas línguas causam na nossa maneira de pensar é real e infindavelmente complexo.

Ao mesmo tempo, para muita gente é um alívio conseguir trocar de personalidade de vez em quando. Ainda mais quando a sua personalidade original está guardada na segurança de um outro idioma.

Varrendo o sótão cerebral

Usando uma, duas ou cem línguas, cuidar da sua imaginação é uma questão de saúde mental. Claro, conviver com pessoas fora do seu contexto — e quanto mais distante da sua cultura nativa, mais fácil — vai naturalmente levar as conversas para os lugares interessantes: para os microuniversos criados pela sua mente ou para os pontos mais fundamentais da sua experiência humana. Mas existem jeitos de acelerar esse processo.

O ideal é que você crie um “cinto de utilidades” cerebral. Tipo o do Batman, mas destinado aos desafios psicológicos e não aos empecilhos mais práticos como mordidas de tubarão. Construir essas ferramentas pode demorar um pouco, mas a jornada é interessante por si só.

Imagine que você precisa de um pequeno arsenal de perguntas que vão extrair essas pedras preciosas das mentes das suas amizades. Lembre-se daquela citação lá em cima — “nós crescemos na direção das perguntas que fazemos” — e tente criar uma bateria de perguntas que vão ajudar no seu crescimento pessoal.

São as mudanças ou as permanências das pessoas que mais interessam você? Os sonhos imaginados ou de fato sonhados à noite? Você prefere entender as emoções ou a lógica?

Não existe uma pedra filosofal das conversas, mas entender o que realmente interessa em si e nos outros já é um grande passo para puxar o melhor de você: do papo mais furado à discussão mais profunda.

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