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Conexão Brasil – Portugal: provérbios até para cruzar o Atlântico

Expressões idiomáticas podem contar a história ou até mesmo o modo de pensar de uma nação. Vemos aqui algumas semelhanças e diferenças entre Brasil e Portugal a partir de suas expressões.
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ESCRITO POR Nuno Marques
Conexão Brasil – Portugal: provérbios até para cruzar o Atlântico

Ilustrado por Paola Saliby

Você se sente às vezes como um burro olhando para o palácio? Ou acha giro ficar espantado com o que vê? As expressões idiomáticas e os provérbios são, por vezes, um grande mistério para quem aprende português – e chegam a despertar dúvidas em ambos os lados do Atlântico.
Eis alguns exemplos para ajudar os que querem melhorar o português – e os que desejam entender mais sobre as diferenças entre Brasil e Portugal.

NEM VEM QUE NÃO TEM!

Uma expressão tipicamente brasileira que indica o desinteresse em ouvir o que vai ser dito. É uma forma de descartar o assunto logo, por parte do interlocutor.

– Mãe, eu estou sem dinheiro. Será que dá para descolar uma graninha?
– Ah, Daniel! Nem vem que não tem!

Em Portugal, a expressão utilizada seria “Não (me) venhas com histórias!“. Proferida num tom de quem é de poucos amigos e não é dado a confianças (ou seja, deseja distância dos outros), a expressão indica pouco interesse em ouvir justificações ou explicações sobre o que for. Um brasileiro diria mais comumente “Não (me) venha com história”, retirando o “s” final, já que conjugam o verbo na terceira pessoa do singular você.

AMIGO DA ONÇA

Esta expressão tem origem no Brasil e vingou triunfantemente em Portugal, um país em que nem sequer existem onças! Indica uma pessoa falsa, um falso amigo que mente e apunhala pelas costas. Um amigo que trai é um amigo da onça.

A origem dessa expressão está na história em quadrinhos (ou banda desenhada, em Portugal) Amigo da Onça, de Péricles de Andrade Maranhão, publicada pela primeira vez em 1943 no Brasil. O nome surgiu de uma famosa anedota brasileira.

– Se você estivesse no mato e aparecesse uma onça, o que faria?

– Eu atirava na onça, ora.

– Mas se você não tivesse espingarda?

– Eu puxava minha faca e matava a onça.

– E se não tivesse faca?

– Eu enforcava a onça com uma corda.

– Mas se nem corda tivesse, como faria?

O homem perde a paciência:

– Você é meu amigo ou amigo da onça?

PUXAR A BRASA À MINHA SARDINHA (ou PUXAR BRASA PARA A MINHA SARDINHA)

Uma expressão brasileira e portuguesa. Se você, não nativo, for a um dos dois países e quiser puxar a brasa à sua sardinha, é porque quer levar vantagem exclusivamente em proveito próprio. Dois falantes brasileiros:

– Ele tentou convencer o patrão a investir no projeto da irmã.

– Claro! Ele está sempre puxando a brasa para sua sardinha!

ARRASTANDO A ASA

Tipicamente brasileira, a expressão indica paquerar alguém. Você fica falando com o vizinho bonitão toda hora? Está arrastando a asa para ele. Em Portugal, a expressão idiomática correspondente é fazer olhinhos. Tem o mesmo significado em terras lusitanas! Ouça a falante portuguesa seguida da falante brasileira:

– Eu vi-te a fazer olhinhos ao João!

– Eu vi você arrastando a asa para o João!

FAZER UM BICO

Expressão brasileira que significa fazer um trabalho rápido, de curta duração e com pagamento sem carteira assinada. Se estiver em Portugal, não utilize de maneira alguma esta expressão, pois significa fazer sexo oral. Utilize a correspondente: fazer um biscate, que ironicamente também tem outro sentido sexual no Brasil, como insulto a mulheres. Confira a diferença entre Brasil e Portugal:

– Eu fui despedido, mas fiz uns bicos para pagar o aluguel.

– Eu fui despedido, mas fiz uns biscates para pagar a renda.

CHEIRAR A ESTURRO

Uma expressão muito portuguesa. Esqueceu do arroz no forno? Então deve cheirar a esturro: a algo torrado e um pouco queimado. Mas se a conversa cheira a esturro, é porque deve ser mentira, engano ou tramoia. Um português que suspeita, não esconde facilmente a desconfiança! Leia dois portugueses:

– Eles oferecem um carro na compra de um telemóvel!

– Essa conversa cheira-me a esturro!

DICA: Telemóvel é celular em Portugal.

COMO UM BURRO OLHANDO PARA O PALÁCIO

Em Portugal, significa espanto e confusão perante algo que não se compreende, pois a pessoa não tem condição de entender o valor ou a qualidade do que lhe é mostrado.

Eis a versão brasileira, seguida da portuguesa.

– Ele falou comigo em japonês e eu me senti como um burro olhando para o palácio.

– Ele falou comigo em japonês e eu senti-me como um burro a olhar para o palácio.

GIRO

Uma expressão coloquial tipicamente portuguesa. Quando alguém em Portugal diz que algo é giro, é porque está encantado e surpreendido com algo que acha interessante – ou com uma pessoa bonita! Um app para o celular (telemóvel em Portugal) que indica se você está roncando (ou ressonando, em Portugal) à noite pode ser super giro se quem o usa achar original e útil. Uma pessoa, se for atraente, também pode ser considerada muito gira. Leia dois falantes portugueses:

– Esta máquina de sumos (sucos) também dá para fazer cocktails.

– Ai, que giro!

Giro, neste contexto, pode ser traduzido como legal ou bacana em português do Brasil. Mas leia agora duas falantes portuguesas:

– A Vanessa tem um corte de cabelo novo giro!

– Sim, mas o novo namorado dela é muito mais giro!

Aqui giro pode ser interpretado como charmoso, atraente ou bonito.

Mas há um terceiro significado! Em Portugal, você também pode dar um giro (dar uma volta no Brasil, ou mesmo um giro) se quiser dar um passeio ou conhecer alguma região. Ouça duas falantes portuguesas de Lisboa:

– Ontem, eu e a Alice fomos dar um giro até Coimbra. Foi um passeio curto, mas soube bem.

– Eu e o Tiago também demos um giro, mas ficámos em Lisboa.

Repare que um giro nunca é uma viagem longa ou distante. Você pode fazer uma pequena caminhada depois do jantar ou até viajar de carro alguns quilômetros, mas nunca pegar um avião, pois isso não constitui dar um giro – a não ser que esteja sendo irônico, descrevendo uma grande viagem como uma pequena coisa.


Vamos agora mencionar cinco provérbios que você pode aprender para melhorar seu português.

PAPAGAIO COME MILHO, PERIQUITO LEVA FAMA

Um provérbio brasileiro. Indica quando uma pessoa faz algo extraordinário, mas outra leva a fama e o elogio. Leia dois falantes brasileiros:

– A patroa elogiou Clarisse pelo bom trabalho, mas quem fez quase tudo foi Tamara.

– Tá vendo? Papagaio come milho, periquito leva fama.

AO MENINO E AO BORRACHO, PÕE-LHES DEUS A MÃO POR BAIXO

Um provérbio tipicamente português. Borracho é o nome dado a um pombo jovem, com pouca plumagem e incapaz de voar. (Borracho também indica uma pessoa muito atraente ou uma pessoa bêbada em Portugal. Surpreendente!)

O provérbio descreve pessoas que, devido à sua inocência e ao seu charme, são agraciadas pelo destino, como se a divina providência as protegesse de qualquer infortúnio. Leia dois falantes portugueses:

– A Elisa teve mais um acidente de automóvel. Mas escapou incólume!

– Não me surpreende. Ele sempre teve sorte. Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo.

PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO

Um provérbio brasileiro. Tem duas interpretações: alguém que usa uma outra pessoa para fazer algo que o mesmo acha arriscado ou então considerar as desgraças da vida como fáceis de encarar quando ocorrem com outras pessoas e não conosco. Leia estes falantes brasileiros:

– Eu acho que é fácil pular o riacho e pegar o seu chapéu que voou. Não tenha medo!

– Claro que você acha fácil! Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Leia agora estas falantes brasileiras:

– Eu não acho que você deva sentir a separação da Felícia de forma tão negativa.

– E você? Quando se separou não sofreu? Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

MACACO VELHO NÃO PÕE A MÃO EM CUMBUCA

Provérbio brasileiro. Significa que quem é mais velho ou tem mais experiência não comete os erros dos mais novos e menos experientes. A expressão vem de uma armadilha para apanhar macacos criada com a casca de cumbuca, em que se faz uma pequena abertura na parte superior e se põe isca no fundo. O animal, enfiando a mão para agarrar a isca, já não se consegue soltar com a mão fechada. Leia uma falante brasileira:

– Adalberto me convidou para viajar, mas recusei porque já sei que vou pagar quase tudo! Macaco velho não põe a mão em cumbuca. Me livrei dessa!

QUEM CORRE POR GOSTO NÃO CANSA

Provérbio português. É utilizado para indicar que algo feito com prazer, não cansa nem desmotiva. Ouça dois falantes brasileiros:

– Heloísa fica sempre fazendo hora extra! Sai tão tarde do trabalho!

– É, mas quem corre por gosto não cansa!

Há uma lista quase infinita de expressões idiomáticas e provérbios de ambos os lados do Atlântico!

Idioma também é cultura!

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