Precisa falar alemão para arrumar um emprego na Alemanha?

A resposta curta é não. Inclusive até existem vagas em português. Mas, a resposta mais longa depende dos seus planos de carreira e da sua vontade de se integrar no país. Afinal, a vida não é só trabalho.
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ESCRITO POR Gabriel B.
Precisa falar alemão para arrumar um emprego na Alemanha?

Nos grupos das redes sociais de que participo, uma pergunta aparece com frequência: precisa falar alemão para arrumar um emprego na Alemanha?

A resposta é não… e sim.

Aviso antes de continuar: este texto é baseado na minha experiência vivendo na Alemanha, em conversas com amigos/conhecidos/colegas de profissão e outros artigos sobre o tema. Logo, é possível que ele não cubra todos os aspectos relevantes do assunto ou que não reflitam completamente a sua realidade em terras germânicas.

Comecemos pela resposta mais óbvia. Devido ao declínio demográfico, a Alemanha precisará importar cerca de 260 mil trabalhadores por ano até 2060 para suprir a demanda da economia, segundo um estudo da Fundação Bertelsmann. 

Ou seja, o que não falta no país – ao menos por enquanto –, é trabalho. 

Entre as profissões em demanda estão desenvolvedor de software e programador, engenheiros eletrônicos, eletricistas, profissionais de saúde, enfermeiros, profissionais da área de tecnologia de informação (TI), economistas, contadores, consultores, arquitetos etc.

Em muitas dessas profissões, é bem fácil encontrar vagas que exijam apenas inglês fluente. É o caso de desenvolvedores de software, programadores e profissionais de TI em Berlim, um dos maiores hubs de tecnologia da Europa. 

O mesmo costuma valer para profissionais de marketing, atendimento ao cliente (setor que contrata falantes nativos de português em empresas com atendimento global), entretenimento, professores de idiomas e artistas. Não é raro que economistas, consultores e profissionais de hospitalidade também arranjem empregos sem falar alemão (ou apenas com o nível básico do idioma). 

Entre contadores, há quem se especialize em algumas línguas que tenham um número grande de imigrantes falantes, e assim ajudam essa parcela da população a navegar no complexo sistema de impostos e burocracias alemãs, mas vale lembrar, por preços nada modestos. É claro que esses profissionais precisam falar alemão.

Cidades maiores costumam ter mais empregos sem alemão

Em geral, é muito mais fácil conseguir um trabalho em inglês em cidades grandes e mais internacionais como Berlim, Frankfurt e Hamburgo. Mas existem locais menores (e não tão atraentes para profissionais alemães) que acabam precisando recorrer a mão-de-obra estrangeira e nem sempre eles podem se dar ao luxo de exigir alemão. 

Especialmente no verão, por exemplo, pipocam em redes sociais vagas em fábricas de sorvete em municípios pequenos sem a necessidade de conhecimento de alemão. Em cidades como Berlim, restaurantes podem até contratar pessoas que não falam o idioma para ajudar na cozinha, na limpeza ou mesmo servindo clientes. Como a temporada é alta, a demanda por serviços aumenta.  

Cidades muito pequenas, em especial no leste da Alemanha, e posições em áreas como política, comunicação, saúde e direitos humanos dificilmente oferecem vagas para candidatos sem ao menos nível intermediário de alemão, ou seja o módulo B1 completo.

Mas e fora do trabalho, como é a vida?

Sempre é possível viver dentro de uma “bolha” de estrangeiros. E isso vale para qualquer lugar do mundo! Eu tive uma chefe que morou no Egito por oito anos sem falar quase nada de árabe. Como ela conseguiu? Fácil: passando a maior parte do seu tempo com amigos acadêmicos e estrangeiros, literalmente em uma bolha social. 

Em cidades mais internacionalizadas como Berlim e Frankfurt, o inglês é bem presente. Dá para se virar na maioria dos lugares, com exceção de alguns órgãos públicos. Até mesmo operadoras de planos de saúde possuem serviços de atendimento ao cliente em inglês. 

Nestes centros metropolitanos, existem diversas plataformas de mídias sociais que organizam eventos com estrangeiros e alemães nos quais o idioma oficial é o inglês. É uma maneira interessante de conhecer gente de todo o mundo e também nativos que desejam interagir com estrangeiros. 

Em locais menores e mais afastados (e até em algumas lojas em cidades grandes), contudo, é bom saber ao menos o básico de alemão ou você vai receber muitos olhares irritados quando tentar se comunicar. 

Mas e aí, vale a pena aprender alemão?

Afinal, ter um trabalho em inglês, português ou espanhol é o suficiente para levar uma vida na Alemanha? 

Para responder a essa questão é necessário considerar alguns aspectos: você tem planos de progredir em sua carreira na Alemanha? Gostaria de se integrar bem na sociedade? Quer fazer amigos alemães? Quer morar em uma cidade pequena? Pretende passar mais de dois anos no país? 

Caso tenha respondido sim a alguma dessas perguntas, talvez seja interessante você aprender alemão. Ou ao menos tentar.

Em alguns setores, é possível conseguir um bom emprego sem conhecimento do idioma local. Mas, em geral, se você quiser progredir internamente em uma empresa e ser promovido a um cargo de gerência em uma empresa alemã, vai ter que falar alemão. 

Em um departamento mais técnico, como TI ou desenvolvimento de softwares, a comunicação pode até ser em inglês. Isso, contudo, não significa que esse é o idioma utilizado por quem toma as decisões da empresa. A chefia provavelmente fala inglês, mas por que deveriam se comunicar em uma língua não oficial do país? 

Ruídos de comunicação comprometem o bom funcionamento da estrutura. Ou seja, ninguém vai se adaptar às suas necessidades linguísticas. Para melhorar as suas chances de promoção, aprender alemão é uma boa pedida. Você será visto com mais qualificação e respeito. 

Outro ponto a favor de aprender alemão é a constante necessidade de lidar com órgãos públicos. Ao mudar de casa, o inquilino precisa fazer o Anmeldung, ou o registro do novo endereço no Buergeramt, a repartição municipal do seu distrito. Esse atendimento ocorre, obviamente, no idioma local. Há funcionários que falam outras línguas, mas eles não têm nenhuma obrigação de fazê-lo.

O mesmo vale para o Finanzamt, o órgão regional responsável por, entre outras coisas, analisar a sua declaração de imposto e coletar seus tributos. É preciso preencher inúmeros formulários para concluir a declaração de imposto de renda, o que pode facilmente se tornar um pesadelo. Embora haja sites que ofereçam esse serviço em inglês, eles não cobrem todos os tipos de renda. E contadores são caros. Caríssimos!

Muitos médicos falam inglês e existem clínicas que oferecem atendimento em diversas línguas. Por outro lado, ao chegar em um hospital para uma emergência é mais provável que hajam apenas falantes de alemão entre os atendentes.

E como fica a vida familiar e as relações, se você não falar alemão?

Pelo lado social, fica difícil considerar alguém completamente integrado no país sem sequer entender o mínimo do idioma local.

Você pode até construir amizades com pessoas alemãs falando em inglês, mas pode ser que não convidem você para um aniversário já que você não vai conseguir se comunicar com os outros convidados ou porque ninguém tem tempo/vontade de ser seu intérprete. Você pode perder algumas oportunidades de interação se você não falar alemão.

Lidar com as inúmeras burocracias alemãs também exige ou conhecimento mínimo da língua ou paciência para usar o Google Translate. São grandes as chances que nenhum dos seus amigos nativos vai querer, ou até mesmo saber, ajudar você a preencher a declaração de imposto de renda. E convenhamos, você saberia fazer o mesmo em português? (risos)

E, para quem tem filhos, há um estímulo extra para aprender o idioma. Não vai ser muito fácil encontrar algum professor/diretor disposto a se comunicar com você em outra língua além do alemão. E como é que você vai se virar nas reuniões de pais? E se tiver algum problema na escolinha?

Enfim, se você pretende se fixar na Alemanha e se integrar de fato, não há outra saída: é melhor ir aprendendo a língua, mesmo que aos poucos. Pode ser difícil no começo, mas definitivamente não é impossível.

Viel Glück!

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Gabriel B.
Gabriel Bonis é jornalista, especialista em Direito Internacional para Refugiados e mestre em Relações Internacionais pela Queen Mary University of London. Ele passa a maior parte do seu tempo escrevendo sobre direitos humanos, ajudando refugiados a lidar com seus processos de asilo e estudando alguma língua nova. Atualmente, vive em Berlim. Siga-o no Twitter (@gbonis).
Gabriel Bonis é jornalista, especialista em Direito Internacional para Refugiados e mestre em Relações Internacionais pela Queen Mary University of London. Ele passa a maior parte do seu tempo escrevendo sobre direitos humanos, ajudando refugiados a lidar com seus processos de asilo e estudando alguma língua nova. Atualmente, vive em Berlim. Siga-o no Twitter (@gbonis).
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