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Um guia de como não se comportar em um supermercado global

Quando em Roma compre como um romano: se existisse algo como um supermercado realmente globalizado, como todos nós deveríamos nos comportar, e, quais hábitos mesquinhos e manias malevolentes cada um de nós teria que deixar de lado?

Escrito por Giulia Depentor

Há muito tempo, os supermercados não existiam do jeito que são hoje. As pessoas costumavam ir a quitandas ou mercadinhos, que cheiravam a ervas e especiarias. Para serem atendidos, todos ficavam em frente ao balcão, com uma lista de compras em punho, calmamente recitando tudo o que eles queriam enquanto o vendedor procurava pelos pedidos.

O vendedor, alguém que eu gosto de imaginar usando um avental e com um suntuoso bigode, se movia com graça e confiança entre as prateleiras da loja enquanto preparava as sacolas, além de manter uma conversa agradável com o seu cliente.

Ah, os bons velhos tempos, não é mesmo?

E, agora interrompa a sua jornada sentimental aos tempos passados e retorne para a realidade muito bem organizada dos atuais supermercados. Imagine-se lá: música alta, corredores repletos de todos os produtos possíveis e inimagináveis, cores neon que atraem a nossa atenção e irritamos nossos olhos, carrinhos, barulhos desagradáveis, pessoas com pressa beirando a agressividade… mas agora existem mais oportunidades do que nunca!

E tudo é exatamente o mesmo em todo lugar, não é mesmo? Existe um Burger King e Starbucks em cada esquina, servindo a mesma comida do mesmo jeito em todo lugar do mundo.

O mesmo vale para os supermercados. Pegue o seu autêntico pão francês no Pão de Açúcar ou aquela massa italiana no Extra.

Essa é a expectativa quando você entra em um supermercado em um país estrangeiro. De certa forma, nós esperamos uma certa familiaridade, uma certa segurança, onde nós podemos adotar um senso de escolha e autonomia que todos os supermachés oferecem. Qualquer um que já tenha entrado em um supermercado na Espanha ou em um Supermarkt na Alemanha vai saber, entretanto, que essa moderna instituição não é a mesma ao redor do mundo; “Eles ainda pesam a própria comida aqui?”, “Onde está o caixa de self service?”, “Por que todo mundo está inserindo garrafas de plástico sujas naquela máquina?”.

Nós fizemos uma pesquisa para descobrir como as pessoas em diferentes países se comportam no supermercado, e em particular os comportamentos que mais nos irritam. Nós então desenvolvemos uma ideia de um supermercado totalmente globalizado. Portanto, Tesco, Carrefour, Gadis, Rewe e Pão de Açúcar prestem atenção! Nós bolamos a sua rota em direção à dominação do planeta.

Os italianos não toleram a ideia de que alguém está tocando as frutas e os legumes sem usar luvas de plástico. Afinal, porque existem luvas ali?! E, ainda tem a fila do açougue, onde os espanhóis começam a ficar irritados se alguém se esquece de pegar a senha, desorganizando tudo. E não finja que você simplesmente esqueceu. Isso é inaceitável.

Estão todos à beira de um ataque de nervos. E, a pergunta que não quer calar é: eles vão sobreviver e manter sua sanidade até a reta final do caixa?

Os alemães ficam impacientes quando existem 5 pessoas na fila e nenhum funcionário abre outro caixa. Um funcionário novato toca freneticamente a campainha para que seus colegas de trabalho abram outro Kasse, mas, claro, todos estão simplesmente escondidos em alguma área secreta, atrás do coletor de garrafas, relaxando.

Em alguns supermercados alemães existe um pequeno sino que você pode tocar quando a fila alcança um certo ponto, e geralmente está escrito: "se a fila alcançar este ponto, por favor toque o sino para abrir um novo caixa".

Na frente do alemão, tem um homem inglês austero que viu uma senhora espanhola que claramente tem intenções de furar a fila. Ele começa a ter espasmos nervosos. O inglês já começa a se zangar com a simples possibilidade de que alguma espertinha possa estar pensando em se espremer e surrupiar um espacinho livre que algum outro cliente desatento tenha deixado. No final, a velhinha espanhola fura a fila com sucesso e fica em segundo lugar, com a desculpa de ser uma senhora, e ninguém vai dizer nada porque isso seria muito vergonhoso.

Por outro lado, nós temos aqui um brasileiro que está cada vez mais irritado. “Por favor, me explique porque está escrito “Caixa Expresso - máximo 10 itens” se o mundo inteiro está passando por ele com as suas compras do mês?”. “Relaxe!” disse o italiano, que de repente viu de canto de olho alguém observando o conteúdo de seu carrinho. “Ei, você está tentando roubar os ingredientes da minha receita secreta, passada de geração para geração pela minha tatatatatataravó? Que sacrilégio!”

Isso muda o nosso foco para o caixa número 1: um sueco gentil está de certa forma de mau humor (embora ele seja imperturbável) devido a uma montanha de itens empilhados desafiando as leis da física. Todos os itens deveriam ser colocados em uma simples fileira. Todos os itens deveriam ter o seu próprio espaço e não existe a necessidade de empilhar para abrir mais espaço.

Esse tipo de comportamento não atende as necessidades do alemão, entretanto. Ele não é capaz de colocar qualquer item na esteira até o Warentrenner (um tipo de barra de metal que separa as compras) ser colocado. Essa é a responsabilidade da pessoa da frente, e até que essa responsabilidade seja cumprida, o alemão vai continuar se embananando com suas compras.

E, na hora de pagar, existe a grande chance de que o inglês seja chamado de “queridinho” ou “amor” pela funcionária do caixa, além de pedirem por sua carteira de motorista como prova de maioridade. Isso pode ocorrer até mesmo quando o cliente tem mais de 30 anos e o caixa é 10 anos mais novo que ele. Vide que agora as regras de apelidos carinhosos ganham uma nova perspectiva.

E, pense um pouco na mulher francesa que foi expulsa sem cerimônias do caixa e está embalando suas coisas freneticamente porque o próximo cliente já está pagando as compras. O que será que aconteceu com os caixas grandes e espaçosos, onde tínhamos tempo suficiente para embalar suas compras de forma calma e tranquila? Agora são necessários truques mágicos para acompanhar a rapidez de todas essas mudanças.

Tudo certo, pronto para ir embora? Sobreviveu? Bom, pode respirar e sair aliviado, porque esse supermercado felizmente não existe, mas agora que você já sabe das manias de várias nacionalidades, com certeza está preparado para lidar com todas elas!

traduzido e adaptado por Sarah Luisa Santos
Ilustração por Elena Lombardi

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