História da cachaça e como ela faz parte da cultura brasileira

A cachaça foi considerada patrimônio histórico cultural brasileiro, e esteve presente em momentos alegres e tristes ao longo de nossa história, além de representar uma resistência e traduzir muito da brasilidade que conhecemos hoje.
Escrito Por Cecília E.
10/10/2018
História da cachaça e como ela faz parte da cultura brasileira
Ilustração de Paula P. Rezende

A cachaça – também conhecida como pinga, cana, caninha – é a aguardente que se extrai, por fermentação e destilação, das borras do melaço da cana-de-açúcar. A cachaça é a queridinha das bebidas brasileiras, presente nos papos, bares, músicas, poemas, saudades… Descrita no começo de sua vida como um tipo de “vinho de cana”, a cachaça foi se expandindo, difundindo, e se comercializando mundo afora. Apresento a história da cachaça. 

Como acontece com quase todo bom vocabulário, a origem dessa palavrinha também tem suas versões e contém em si muitos rumores, um bom bocado de fofocas, amores, dores e contos mil! O fato é que apesar de ninguém saber exatamente quando a cachaça surgiu, todo mundo sabe onde: Brasil. Em 1660, Portugal já havia percebido que a bebida não era só querida no Brasil, como também fora dele!  E propõe um imposto aos produtores, tornando a bebida da nação em construção tão cara, que a torna inacessível às mãos dos menos favorecidos. Essa ideia, claro, não foi tão bem recebida assim e logo surge uma revolta! Registrada no livro da vida como a famosa Revolta da Cachaça.

Do seu descobrimento até o surgimento da primeira cachaça industrializada e comercializada em garrafa lacrada, demorou, mas não muito! A Monjopina é fundada já em 1756, em Pernambuco, e depois dela, muitas, mas muitas outras surgiram – e surgem – por todo território brasileiro e para além!

Outra hipótese, diz que a cachaça foi descoberta quando alguns escravos misturavam um melaço velho e fermentado a um melaço mais novo. Nessa mistura toda, o álcool do melaço velho teria evaporado e criado gotículas de cachaça no teto do engenho. Na medida que as gotículas se desprendiam do teto e seguiam em plena queda livre, elas atingiam as feridas dos corpos dos escravos, queimando suas peles num pequeno ardor – daí o nome da futura bebida de aguardente. Mas calma… essas gotículas da história da aguardente não caíam só sob ferimentos… Por vezes, elas atingiam as cabeças dos escravos e seguiam rolando por seus frontes, escorrendo livremente até que encontravam o caminho de suas bocas, oferecendo suas pequeninas porções de um certo elixir da vida. Teria sido assim, desse pinga-pinga de gotículas-de-teto-de-engenho que a cachaça – ou pinga! – teria surgido.

Agora… Mudando um pouco de assunto e abrindo a história para mais uma possibilidade! A origem da palavra cachaça pode também ter vindo da própria palavra cachaça, que nesse caso seria o feminino da palavra cachaço, que significaria grosseiramente porco. Aparentemente, a carne dos porcos selvagens do Nordeste era muito, mas muito dura, e precisava de um pouquinho da tal da bebida para amolecer… A bebida então, nesse caso, teria ficado com o mesmo nome da tal da carne dura… Dá para acreditar? Ah, até que dá vai! Todo mundo sabe que a cachaça é justamente conhecida por amolecer carnes, corações… Ela é famosa por incendiar festas, aflorar emoções, exaltar conversas, ser a companheira dos desacompanhados e por aí vai!

E para quem que achava que era fácil falar de cachaça…  É só começar a pensar na sua importância a nível social, econômico, cultural, psicológico… Olhar para sua origem, ver essa bebida lá no início da história brasileira, cruzar e recruzar todos os fios que a cachaça traz em si… E por vezes parece que nem em uma vida toda a gente conseguiria falar de tudo que tem para falar da caninha…!  

A cachaça parece se misturar um pouquinho em tudo… É muito mais do que só um líquido de alto teor alcoólico. Ela tem seu próprio valor simbólico, ela é poética, musical, teatral, política! Ela é uma musa, uma confidente, uma delinquente… Um universo em si.

…E como já diria o nosso querido Mário Drummond de Andrade…

Meu verso é minha cachaça.

Todo mundo tem sua, cachaça.

Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,

folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

É isso, minha gente!

Por hora, agora só digo: que se beber, não dirija! E até a coluna que vem!

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Cecília E.
Cecília Erismann é uma poeta e artista com muitas curiosidades. Autora dos livros Poesia em Flor Menor e A dialogue between poetry and philosophy: An encounter of the writer with his reader, Cecília já teve seus textos publicados em diversas revistas, colaborações e ontologias. Atualmente ela mora em Berlin, onde consegue dar sempre um jeitinho de praticar os 5 idiomas que fala e arriscar de vez em quando uma ou outra palavrinha num outro idioma que ela ainda não conheça muito, tipo italiano.
Cecília Erismann é uma poeta e artista com muitas curiosidades. Autora dos livros Poesia em Flor Menor e A dialogue between poetry and philosophy: An encounter of the writer with his reader, Cecília já teve seus textos publicados em diversas revistas, colaborações e ontologias. Atualmente ela mora em Berlin, onde consegue dar sempre um jeitinho de praticar os 5 idiomas que fala e arriscar de vez em quando uma ou outra palavrinha num outro idioma que ela ainda não conheça muito, tipo italiano.

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