Porque não falamos espanhol no Brasil?

O idioma ainda não tem o destaque que merece em muitas escolas e também entre a população brasileira, mas os avanços nas últimas décadas são inegáveis.
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ESCRITO POR Gabriel B.
Porque não falamos espanhol no Brasil?

No Brasil, a ideia de que aprender inglês seja fundamental para alcançar sucesso profissional e ter acesso a uma vastidão de conhecimento é bem comum. E essa não é uma percepção errada. A língua anglo-saxônica segue como a mais estudada no mundo e considerada essencial, por exemplo, no mundo dos negócios.

Mas aprender inglês não significa deixar de estudar outras línguas! Pelo contrário: quanto mais idiomas você explorar, mais oportunidades de trabalho e conhecimento terá no horizonte. E, convenhamos, no pior dos cenários ao menos você poderá ler excelentes livros em seus idiomas originais. Não é pouca coisa! 

Entre inúmeras línguas estrangeiras interessantes está o espanhol, falado por países vizinhos do Brasil com os quais dividimos muito da nossa cultura, economia e recursos naturais. Sim, esse idioma tem suas similaridades com o português, mas é muito diferente e belo em seu próprio mérito.

Então por que não falamos mais espanhol no Brasil? A resposta passa por políticas públicas, foco excessivo no estudo do inglês e até a pouca importância que alguns governos, ao longo do tempo, deram para as relações com os países sulamericanos hispano-falantes.

Ela inclui também uma questão de perspectiva. Pode não parecer, mas muita gente estuda/domina sim o idioma espanhol na terra brasilis. 

Não acredita? Dados de 2018 do Instituto Cervantes mostram que 460 mil pessoas no Brasil têm domínio nativo do espanhol e outras 6,12 milhões aprendem essa língua (um número inferior apenas aos Estados Unidos). Esse é quase o tamanho da população da cidade de Rio de Janeiro!! Ou seja, existe interesse e demanda entre os brasileiros.

Por outro lado, o espanhol ainda parece não ter o destaque que merece em muitas escolas ou no nosso cotidiano. E podemos incluir aqui entre as justiticativas a desconexão de muitos brasileiros com sua identidade latina.

Por exemplo, qual foi o último livro de um autor, digamos, colombiano que você leu? Ou qual dos diversos excelentes filmes argentinos você assistiu recentemente?

“Não é que o Brasil está rodeado de falantes de espanhol. O Brasil é parte dessa região por mais que não se sinta assim”, destaca o argentino Adrián Pablo Fanjul, linguista e professor de espanhol na Universidade de São Paulo (USP).

A ideia de que só o inglês é importante e que o espanhol é a língua de países pobres ao nosso redor foi sendo disseminada ao longo do tempo e comprada por parte da população, argumenta Neide Therezinha Maia González, também linguista. “É como se não se produzisse conhecimento ou ciência que não fosse em inglês”, afirma a professora da USP, cuja pesquisa inclui o ensino do espanhol no Brasil.

“Muita gente também acha que não precisamos estudar espanhol porque é muito fácil. Mas quando passam a aprender de maneira séria, entendem que a coisa não é bem assim”, completa. 

Uma estrada acidentada

O ensino do espanhol no Brasil teve altos e baixos. Pouco após o tratado que deu origem ao Mercosul, alguns estados passaram a oferecer o idioma. Nos anos 2000, a Lei 11161 tornou a oferta obrigatória aos alunos do ensino médio. Em 2017, contudo, o espanhol foi “rebaixado” para segunda língua preferencial, enquanto o inglês virou mandatório.

Durante o tempo em que a Lei 11161 ficou em vigor, diversos cursos e carreiras em espanhol foram criados em universidade federais, formando milhares de professores do idioma. Houve também oferta aos alunos da rede pública, na maioria das vezes em centros de línguas fora da grade curricular normal e em horários nem sempre ideais. 

“Quando a oferta do espanhol foi viabilizada, a procura foi muito grande. Há o interesse reprimido porque não existe oferta suficiente”, afirma González.

“Nos últimos 20 anos, houve uma inserção maior do espanhol nas escolas públicas e privadas. O crescimento é inegável. Sem falar da presença no ensino superior, onde está em praticamente todos os institutos federais”, diz Fanjul.

Apesar de o ensino do inglês no Brasil incluir um universo mais amplo de estudantes por estar presente nas grades oficiais do ensino fundamental e médio e em escolas/institutos privados, houve progresso no aprendizado do espanhol nos últimos 20 anos. 

E o idioma continua lutando para manter o seu espaço após a mudança da lei. No Rio Grande do Sul, professores de espanhol criaram o movimento #FicaEspanhol para devolver a obrigatoriedade da oferta da língua nas escolas estaduais gaúchas. Deu resultado: uma emenda na Constituição estadual foi aprovada definindo exatamente isso.

Agora o movimento se espalha para outros estados. Há cobranças semelhantes no Rio de Janeiro e em Sao Paulo. “Como se explica que professores de espanhol tenham conseguido isso se não com o apoio dos setores da população?”, questiona Fanjul.

“Não é uma questão de se o público gosta ou não [do idioma], mas de políticas públicas. Nas ocasiões em que houve políticas de inserção da língua espanhola nas escolas, elas tiveram apoio”, completa o linguista. 

Espanhol x inglês 

Aprender espanhol não significa deixar de lado o inglês, nem o francês, o italiano, ou qualquer outra língua. Os estudantes, e os brasileiros em geral, se beneficiariam caso fossem estimulados a explorarem uma variedade maior de idiomas.

“Tentamos mostrar que há outras línguas importantes para o conhecimento, que dão acesso à ciência e à cultura. Não podemos cair na ideia de que só o inglês vai nos salvar. Por exemplo, é clara a importância do alemão na tecnologia e no mundo jurídico, onde o italiano também é relevante”, defende González.

Quanto ao futuro do espanhol no Brasil, a professora acredita que o maior acesso aos cursos gratuitos seja um elemento crucial, pois os caros institutos privados não estão ao alcance de toda a população. “É uma língua que dá acesso a uma literatura maravilhosa, de altíssimo nível e a uma porção de outras coisas. Há muita coisa traduzida para o espanhol que seria inacessível por outras línguas. Não é falta de interesse, é falta de oportunidade.” 

E, nesse ponto, Fanjul levanta outro debate: o ensino do espanhol nas escolas brasileiras deve focar em criar estudantes que “saiam falando e escrevendo fluentemente”? Para o professor da USP, não necessariamente. 

“No ensino médio, o espanhol tem que ser uma ponte para o conhecimento da história, geografia, economia e política dos países vizinhos, pois esses aspectos têm influencia direta no cotidiano dos brasileiros, como no comércio exterior ou compartilhamento de recursos naturais”, diz. 

A fluência no idioma é um aspecto completamente diferente à oferta. Por exemplo, poucos brasileiros dominam o inglês mesmo que a língua seja ensinada em milhares de escolas públicas e privadas no país. Apenas 5% têm algum conhecimento do idioma anglo-saxão e somente 3% dos que o  estudam/estudaram são fluentes. 

A oferta do espanhol precisa lidar com esse mesmo problema.

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