Inglês, uma trama de muitas línguas

O inglês que conhecemos hoje tem uma história grande. Entre nessa viagem e descubra como os vikings e os franceses moldaram a história da língua inglesa.
Escrito Por Fabiana Caso
04/05/2020
Inglês, uma trama de muitas línguas


Hoje em dia, a língua inglesa é o mais próximo que temos de um passaporte global de comunicação, ao menos no mundo ocidental. É a mais aprendida no mundo como segundo idioma – a estimativa atual é de dois bilhões de falantes. Mas o curioso é que o próprio inglês se formou como um passaporte cheio de carimbos das muitas culturas e povos que ocuparam as ilhas britânicas. Eles imprimiram desvios, mutações do vocabulário, adições, idiossincrasias e misturas que originaram o English que conhecemos atualmente. Totalmente “impuro” e repleto de influências, como uma salada mista de sotaques e fonemas.

Isso começou a chamar a minha atenção quando comecei a estudar francês. Apesar de tanta gente realçar a similaridade com o alemão, passei a ficar admirada do quanto eu podia entender palavras francesas, por causa do inglês! Apesar de a pronúncia ser very different.

O que me levou a pesquisar sobre o que foi muito mais do que um flerte dos dois idiomas, e que acabou me levando a uma viagem bem mais longínqua. Como afinal se originou essa língua de artigos neutros e de feição tão objetiva onde poucos verbos geralmente resolvem a parada e comunicam muito, dependendo de como são usados e acompanhados?

Tal qual um bom vinho, a maturação do inglês foi bem comprida, ao longo de 1400 anos de histórias relacionadas aos diferentes povos que ocuparam a Inglaterra. Tanto que ele é dividido em várias idades: Old English (o inglês antigo), Middle (do período do meio), Early Modern (o começo da era moderna) e Modern (o inglês mais próximo do que conhecemos, que se desenvolveu apenas a partir do século 17). Para quem quer ter ideia das mudanças, vale ler os (difíceis) versos originais de William Shakespeare, publicados já na transição do “meio” para o “moderno criança”, entre o século 16 e 17. Naquela época ainda havia a liberdade de usar as palavras em ordens distintas, como herança do Old English, com o verbo principal às vezes no final da frase, como acontece até hoje… no alemão.

Muitíssimos séculos antes dos versos do bardo, os celtas dominavam o pedaço britânico. Só que os romanos, que passaram a marcar presença na Inglaterra e permaneceram por lá até o século 5, “corromperam” os dialetos celtas com expressões em latim.

Aí chegaram os anglo-saxões, tribos germânicas oriundas do noroeste da Alemanha, Dinamarca e Noruega. Cansaram das andanças e fincaram raízes na Inglaterra, cujo nome, aliás, vem de “Englaland” – “land of the Anglos“, ou seja, a terra dos anglos.

Eles falavam línguas com raízes germânicas comuns ao alemão e ao holandês, que compuseram a trama do tal Old English. Havia inflexões e declinações parecidas com as do alemão atual, de novo! E a gramática das duas línguas também era mais próxima.

Daí que o inglês é considerado, oficialmente, uma língua germânica ocidental. E até hoje sobrevivem tantas palavras semelhantes no inglês e no alemão, onde até a pronúncia é a mesma, ou quase – basta pensar em Hand (mão nas duas línguas), no verbo find (encontrar, que é finden em alemão), apple (apfel em alemão, maçã) ou em fish (peixe, nos dois idiomas). 

Só que o Old English acabou incorporando termos mais viscerais e “irados”, digamos, quando foi arrebatado pela superinfluência das línguas germânicas nórdicas. What? Eram os idiomas dos povos vikings da Escandinávia, que conquistaram e colonizaram partes das ilhas britânicas durante os séculos 8 e 9. Aí eles simplificaram bastante a gramática do inglês “arcaico” dos anglo-saxões. E deixaram extenso vocabulário, que segue poderosamente em voga. Basta pensar em alguns dias da semana, como a famosa quinta-feira em homenagem ao deus da mitologia nórdica Thor: Thursday, corruptela de Thor Day. Ou a palavra ugly (feio), que veio de ugga (!) dos vikings.

Acabada essa ocupação nórdica, os anglo-saxões voltaram a dominar a parada linguística no período do Middle English, o do meio. Até que tudo mudou com a French invasion, quando todo mundo tinha que dar bonjour na Inglaterra. Danger! (Um perigo, nas duas línguas.)

Foi durante a chamada “conquista normanda da Inglaterra”, que durou de 1066 a 1075. Ela foi resultado de uma junção de forças de soldados franceses, bretões, flamengos e normandos, liderados pelo duque da Normandia que ficou conhecido como William, o conquistador. Apesar dessa dominação ter durado menos que uma década, ela foi o bastante para lançar o estopim linguístico que faria um twist que mudou o inglês para sempre, decretando a derrocada do velhinho Old English mais germânico.

Esses novos invasores falavam o dialeto francês anglo-normando, que foi incorporado pelo governo britânico como idioma oficial administrativo, usado em documentos oficiais e em obras literárias – até o século 15! A aristocracia da Inglaterra medieval também o adotou como sua linguagem falada. E a prática acabou se estendendo às universidades, a outras classes sociais e a todo tipo de manuscrito: era comum que os ingleses aprendessem o tal dialeto francês. E foi aí que acabou rolando a miscigenação das línguas. Os filhos foram as palavras totalmente idênticas ou derivadas do francês em todo um novo vocabulário, sem maiores consequências para a English grammar.

Na esteira dessa incorporação do dialeto nas esferas da cultura aristocrática e intelectual dos tempos medievais, a presença francesa é especialmente notável em termos mais cultos, literários ou acadêmicos em inglês.

E bom, vale lembrar que o francês dominou como língua diplomática oficial e “global” no mundo todo até meados do século 20 – perdeu o trono de segundo idioma mais estudado e falado no mundo para o inglês só depois da Primeira Guerra Mundial, que acabou em 1918. O que foi alavancado também pela iminência dos Estados Unidos como nova potência econômica.

A quantidade de palavras incorporadas ou derivadas do francês é avassaladora. O estudo de Joseph M. Williams credita 29% da origem das palavras mais usadas em inglês ao francês e ao “anglo-francês”. Surpreendente que ele reserva a mesma porcentagem de 29% ao latim – resultado da mencionada presença ainda mais antiga dos romanos. As línguas germânicas (incluindo holandês e outras) ficam com 26%.

Esse estudo de 1975 foi o último oficial sobre a influência de outros idiomas no inglês. E há quem conteste esses dados hoje em dia, dizendo que a pesquisa de Joseph levou em conta apenas termos presentes em cartas corporativas, e estenda a presença de palavras francesas ou derivadas do francês no inglês para 45%, ou até 56%, dependendo da fonte. Tanto que alguns linguistas acreditam que a categorização oficial do idioma deveria ser revista para a de uma língua híbrida: “germânica românica” e não “germânica ocidental” como mencionado.

Eu não sou linguista, mas depois de ir mais a fundo no mix que compôs a trama do inglês a partir de tantas culturas diferentes, eu o categorizaria definitivamente como um idioma cosmopolita. Para mim, ele ganhou mais legitimidade de ser chamado atualmente de lingua franca. Afinal, quando o falamos estamos transportando palavras herdadas de celtas, romanos, vikings, anglo-saxões germânicos e franceses – no gosto de fonemas e sotaques amadurecidos por tantas histórias ao longo do tempo. Je t’aime encore plus, English.

APRENDER UM IDIOMA É TAMBÉM APRENDER HISTÓRIA
BAIXE AQUI O APLICATIVO BABBEL
Author Headshot
Fabiana Caso
Fabiana Caso é escritora, pesquisadora de música, jornalista, DJ, editora de playlists e fundadora da festa e festival Néonloop. Paulistana, adora descobrir outras cidades, estudar idiomas e diferentes culturas e cenas artísticas. Além do português, fala inglês, francês, italiano e está dando duro para aprender alemão. Morou em Berlim, passou um tempinho nos Estados Unidos e, de volta a São Paulo, está prestes a lançar um livro sobre cenas musicais brasileiras.
Fabiana Caso é escritora, pesquisadora de música, jornalista, DJ, editora de playlists e fundadora da festa e festival Néonloop. Paulistana, adora descobrir outras cidades, estudar idiomas e diferentes culturas e cenas artísticas. Além do português, fala inglês, francês, italiano e está dando duro para aprender alemão. Morou em Berlim, passou um tempinho nos Estados Unidos e, de volta a São Paulo, está prestes a lançar um livro sobre cenas musicais brasileiras.

Artigos recomendados

9 palavras que você achava que eram inglesas mas que vieram dos vikings

9 palavras que você achava que eram inglesas mas que vieram dos vikings

Você sabia que a língua antiga dos escandinavos influenciou profundamente o inglês? Confira como isso aconteceu e conheça a história de nove palavras que têm origem no nórdico antigo e que são usadas até hoje.
A excêntrica história da ortografia inglesa (e por que ela enlouquece qualquer um)

A excêntrica história da ortografia inglesa (e por que ela enlouquece qualquer um)

Por que é tão difícil escrever e pronunciar palavras em inglês? Parece que a inconsistência na ortografia inglesa vem de uma história cheia de reviravoltas, com muitos responsáveis e mudanças loucas pelo caminho.
Escrito Por Nuno Marques
Lista de falsos cognatos em inglês com 47 palavras para você não errar

Lista de falsos cognatos em inglês com 47 palavras para você não errar

Você sabe o que são os falsos cognatos? São aquelas palavrinhas de outro idioma que soam semelhante ao português, mas que significam algo completamente diferente.