Italianos no Brasil: minha descoberta dos sotaques brasileiros

Como será que vivem os italianos no Brasil? E, será que para eles também existem muitas dificuldades na hora de se adaptar, aprender o português? Aqui, Viviana conta como é ser estrangeira no Brasil, e já começou com uma paixão imensa: a música brasileira.
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Italianos no Brasil: minha descoberta dos sotaques brasileiros

Meu nome é Viviana, sou de Milão, e o meu relacionamento com a língua portuguesa começou há mais ou menos seis anos. Eu o definiria como um amor belíssimo e intenso, uma atração feita de sons suaves e musicais, que não deixam de deliciar meus ouvidos – muitos italianos no Brasil se deparam com isso (risos!). 

Por isso, quando cheguei aqui em São Paulo, ao precisar falar minhas primeiras palavras, entender e ser entendida, decidi ter como primeiros professores alguns cantores: Gilberto Gil, Tom Jobim, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes e Maria Bethânia (que sem sobrenome demorei anos para descobrir que é irmã do Caetano, que também mencionei!).

Quando comecei a estudar português, me apaixonei. Claro, nem sempre tudo é fácil. Por exemplo, sabe a música super famosa do Tom Jobim, Garota de Ipanema? A primeira vez que a ouvi, me senti totalmente inspirada. Enquanto eu anotava todas as palavras que ainda não conhecia no papel, ao ritmo de bossa nova, eu já conseguia me imaginar com os pés quentinhos na areia macia, andando na praia em um dia lindo de sol. Como único barulho, as folhas das palmeiras movidas pelo vento. Sim, eu estava viajando total! 

Mas, mesmo a viagem estando muito bonita, tinha alguma coisa que eu continuava sem entender e que estava me incomodando: tratava-se de um som que se parecia muito com o [sh] do nosso verbo sciare (esquiar, em português). Mas, eu não estava reconhecendo nas letras e, para falar a verdade, estava meio confusa. Tudo bem que tudo “fica mai[sh] lindo por causa do amor”, mas com certeza não ficou mais claro, pelo menos para nós, pessoas estrangeiras, viu Antônio? Verdade que muitas vezes é o amor que complica, mas neste caso específico o culpado era só um: o sotaque do cantor.

Por isso, decidi pedir a ajuda a uma professora de português que era de São Paulo. Naquela época, eu ainda não conseguia entender que estava cometendo um erro terrível. Ela, a Fabiana, com muita calma, colocando os óculos no nariz, leu a mesma frase, mas de um jeito bem diferente do meu. “Fica mai[s] lindo por causa do amor. Qual é o problema, Viviana?” Então, eu respondi: “Não estou ouvindo o [sh] chiado do que você está me falando”. Lembro destas palavras hoje como se fosse ontem.

Em seguida, enquanto ela tirava os óculos do nariz, do mesmo jeito que os tinha colocado, eu continuava a ignorar que os habitantes do Rio de Janeiro, os cariocas, falam de uma maneira muito diferente dos paulistas, pronunciando frequentemente este som: bi[sh]coito (biscoito), lu[sh] (luz), a[sh] veze[sh] (as vezes), tre[sh] (três). E assim vai!

Naquele instante eu, imigrante italiana no Brasil, tive a minha primeira revelação. Comecei a entender que este país é grande demais; não é um estado, mas um continente se comparado com a nossa Itália pequenininha. E os estrangeiros, para ganhar o “Green Card brasileiro”, tem que entender tudo o que as pessoas falam para eles, independente da proveniência geográfica dos interlocutores. Brincadeira (risos)!

Mas a verdade é que, muitas vezes, a mesma palavra quando pronunciada em São Paulo, é diferente no Rio, em Salvador ou em Porto Alegre. Quando não é dita de um jeito completamente diferente. Sim, no Brasil, não somente os milhares de quilômetros separam uma cidade da outra, o sotaque (LINK SOTAQUES) também.

Tudo bem, “mas isso não acontece também na Itália?”, você pergunta.

Claro! Conversem com um milanese, um genovese ou um romano. Depois de cinco minutos, você irá reparar que os sotaques deles também não são iguais. E nós, para piorar, falamos também em dialetos. E quando uma pessoa fala em dialeto de verdade (nós falamos stretto, ou seja, apertado) é quase impossível entender o que ela está dizendo, se não for da sua mesma cidade.

Por exemplo, no primeiro ano que eu estava morando em São Paulo decidi assistir a um filme italiano para matar a saudade de casa. Gomorra, de Roberto Saviano, bem pesado, mas bem interessante, sobre a situação da máfia no meu país. Olhei para meu marido muito emocionada, sabendo que vocês brasileiros geralmente não dublam os filmes. Eu juro que depois de cinco minutos precisei colocar legendas, pois não estávamos entendendo absolutamente nada do dialeto napolitano falado pelos atores.

Então, na Itália a situação do entender e ser entendido pode ser até mais complicada do que no Brasil?

Na Itália, o pior que pode acontecer é que você peça para as pessoas falarem com você em italiano e não em dialeto, e elas o farão sem problemas. Na maioria das vezes, pois sempre há exceções. Como por exemplo, a minha avó materna, que na vida dela só falou dialeto mantovano; mas isso vale mais para as pessoas mais idosas. Geralmente, na escola todo mundo estuda o mesmo italiano, que é aquele do famoso Dante Alighieri, e no máximo falará poucas palavras insólitas em dialeto.

No Brasil, eu acho que as grandes diferenças não estão nos dialetos, mas nos regionalismos e nas gírias que se juntam aos sotaques para dificultar ainda mais o quadro geral para nós, estrangeiros. Para resumir: oficialmente a língua falada aqui é o português, mas tudo muda ao falar na Bahia no Rio Grande do Sul ou em Goiás. E, o interior aqui é interior mesmo. Grande, enorme, imenso. Não igual ao ABC de Firenze do nosso amigo Dante.

E, não preciso viajar para o norte do país para dar um exemplo de mal entendido que aconteceu comigo. Tenho uma grande amiga de Porto Alegre. Lembro que um dia, falando com ela de alguma coisa que me deixava muito, muito feliz, me senti ofendida. Sabem quando compartilhamos algo entusiasmante e esperamos que todo mundo mostre a mesma energia e empolgação? E se a pessoa que está conversando com você respondesse simplesmente “Bah!”? O que vocês achariam? Nós italianos ficaríamos bem mal, pois “bah!” em italiano significa “que nojo!”. E eu nunca tinha ouvido esta expressão antes. E em São Paulo eu poderia ter esperado no máximo um “meu! da hora”.

Ela, tadinha, queria falar exatamente isso para mim, utilizando uma gíria da cidade dela. Apesar deste momento tenso, nós somos ainda muito amigas, “visse”? Entendi mais uma vez que neste país é bom respeitar as distâncias. As geográficas, entendo. E, indo embora, mandei “um cheiro para mermã”.

Falando nisso, me sinto no dever de dar uma última dica, essencial para todas as pessoas que estão querendo estudar o idioma e vir ao Brasil: vocês podem estudar português com uma pessoa de qualquer cidade daqui, viu? Carioca, gaúcha, baiana ou paulista, levando em conta as considerações feitas até agora.

Mas conheci pessoas que decidiram estudar português, antes de vir para o Brasil, com professores de Portugal. Gente, para esclarecer: se o estado de Santa Catarina está bem longe do estado do Amapá, está ainda mais longe de Porto ou Lisboa. Tive uma professora na faculdade que era portuguesa. Ainda lembro o que passou, como fala a Marisa Monte (outra professora minha, risos).

E tive também uma colega de trabalho. Não é brincadeira: muitas vezes eu não entendia nada.

Ou eu andava ou parava para ouví-la falar.

Ou eu conduzia ou parava para ouví-la falar.

Ou eu comia, ou parava para ouví-la falar

Eu me dava conta de que eu perdia o poder de ser multitasking. Ela era minha criptonita. Eu lembro que para falar leite ela falava light, com pronúncia parecida com o inglês, e eu conseguia pensar só na Coca Cola!

Então, para fechar o assunto, escolha bem o seu “cantor-professor”. Dependendo de onde você for, uma escolha tem mais a ver do que outra. 

Algumas dicas?

Se vocês amam a cidade e a loucura, irão adorar a Rita Lee e São Paulo.

Se vocês preferem as praias, o mar, e aquela poesia suave e tropical, sugiro o Chico Buarque. Com os olhos azuis deles, vocês virão o Rio.

Estão procurando ritmo, sol, calor e magia? A minha favorita é a Bethânia, sem sobrenome, que vem da Bahia.

São sugestões bem pessoais e subjetivas. Mas, sem dúvida, o português é uma música linda, não importa de onde venha. 

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Viviana Venneri
Viviana é uma viajante urbana. Metrô, bicicleta, scooter ou um tênis All Star? Não importa qual o meio de transporte, o fato é que ela sempre se impressiona com as ruas caóticas de São Paulo, cidade onde vive atualmente. Ela ama observar as pessoas, tirar fotos de grafittis, ouvir de canto conversas alheias e descobrir novos lugares. Muito curiosa, ela sempre diz que não é necessário pegar um avião para viajar. Justo.
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