O que é cumbuca? Conheça a história dessa velha companheira dos lares brasileiros

Cumbuca, cumbuquinha… afinal, o que é cumbuca, esse objeto tão presente na vida de tantos brasileiros e brasileiras?
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ESCRITO POR Cecília E.
O que é cumbuca? Conheça a história dessa velha companheira dos lares brasileiros

Ilustrado por Paula P. Rezende

Dizem por aí que o segredo de tudo está dentro de uma boa cumbuca! Dentro dela: uma ligação gostosa entre o céu e a terra se constituindo no cotidiano de muitas comunidades e realidades diferentes. O que é cumbuca, afinal? Na sua definição mais simples, a cumbuca é uma vasilha. E, quantos momentos gostosos nós já não passamos comendo ou bebendo algo em uma simples cumbuquinha…! Esse utensílio de cozinha tão corriqueiro parece mesmo guardar algo de especial em toda a sua cotidianidade! Mas de onde será que a cumbuca vem? Qual a origem de seu nome?

Como muitos já sabem, no Brasil existe uma árvore frutífera nativa da Mata Atlântica que se chama Cumbuca. Essa árvore é da família das mirtáceas (Marlierea edulis) e tem folhas e flores semelhantes às da Cambucarana. Essa árvore dá frutos que são como bagas esféricas com uma polpa amarelo-avermelhada, espessa e agridoce. O fruto da Cumbuca recebe o mesmo nome de sua árvore: cumbuca – de onde vem, mais tarde, o nome do utensílio de cozinha feito a partir deste fruto, também chamado cumbuca. Quando os frutos dessa árvore amadurecem, deles desprendem umas pequenas castanhas que os filhotes de macaco parecem não poder resistir! Eles enfiam a mão na abertura da fruta, ficando presos lá! E só conseguem tirar a mão quando decidem abandonar o fruto… Quiçá vem daí a expressão: “Não meter a mão na cumbuca!”  

Ou essa expressão pode ter tido ainda outra origem! De acordo com o livro Vocabulário tupi-guarani portuguêsde Silveira Bueno, cumbuca significa:

“Cabeça cuja a parte superior se cortou. De Cuia-nbuca. Daqui o dizer corrente no Brasil: Não meter mão em cumbuca, isto é, não se arriscar em negócio que poderá dar mal resultado. Vem do costume entre os indígenas que serve para experimentar a resistência à dor, ao sofrimento, dos rapazes: enchem de formigas venenosas uma cumbuca e o rapaz mete a mão dentro da cabeça, suportando as ferroadas dolorosas das formigas. Muitos não suportam as dores e chegam até a desmaiar”.

De acordo com Dicionário Aulete Digital, a cumbuca é um vaso feito do fruto do cueiro ou do cabaceiro (cabaça), em cuja parte superior se faz um furo. Usado principalmente por índios e caboclos, para conter e transportar líquidos. Ou: cabaça destinada a aprisionar macacos e que contém um furo pelo qual o animal mete a mão para pegar uma isca, ficando preso por não conseguir libertar o braço. Do tupi kui’mbuka, ou segundo A.Nascentes, do tupi kuya’buka, por cuiambuca.

Por mais que a definição da cumbuca, como é o caso de quase todas as palavras, tenha variações em seus mitos e significados de acordo com a fonte e a cultura que a esteja explicando, nós podemos afirmar que em sua origem, a cumbuca é uma arte indígena, é um utensílio de cozinha útil largamente utilizado. Na sua classificação gramatical, a cumbuca é um substantivo feminino. Separação silábica: cum-bu-ca. Plural: cumbucas. Consoantes: C. M. B. Vogais: A. U.

A cumbuca é mais uma dessas palavrinhas que têm uma participação especial, apesar de pequena, na produção literária e musical brasileira! Deixo vocês aqui com dois exemplos dessa pequena participação da cumbuca num trecho da música de Almir Sater e num conto folclórico de Pernambuco:

Trecho da música Cumbuca:

Esse disse que me disse

Não nos faz feliz

Tudo isso é muito triste

(…)

Sabe moça

A vida até que é boa

Mas podia ser melhor

(…)

Os homens tão

Metendo a mão na cumbuca.

A cumbuca de ouro e os marimbondos (Pernambuco):

Havia dois homens, um rico e outro pobre, que gostavam de pregar peças um ao outro. Foi o compadre pobre à casa do rico pedir um pedaço de terra para fazer um roça. O rico, para pregar uma peça ao outro, deu-lhe a pior terra que tinha. Logo que o pobre teve a confirmação de que receberia a terra, foi para casa contar à mulher, e foram ambos ver o terreno. Chegando lá, o marido viu uma cumbuca de ouro, e, como estava nas terras do compadre rico, o pobre não quis levá-la para casa, e foi dizer ao outro que em suas matas havia aquela riqueza. O rico ficou logo todo agitado, e não quis que o compadre trabalhasse mais em suas terras. Quando o pobre se retirou, o outro correu com sua mulher para a mata a fim de ver a grande riqueza. Chegando lá, o que achou foi uma grande casa de marimbondos; meteu-a num saco e tomou o caminho do casebre do pobre. Logo que o compadre rico avistou o compadre pobre, foi gritando:

– Ó compadre, fecha as portas, e deixa somente um lado da janela aberto! O compadre assim o fez, e o rico, chegando perto da janela, atirou a casa de marimbondos dentro da casa do amigo, e gritou:

– Fecha a janela, compadre!

Mas os marimbondos bateram no chão e transformaram-se em moedas de ouro. O pobre chamou a mulher e os filhos para juntá-las. O ricaço gritava então:

– Ó compadre, abra a porta!

Ao que o outro respondia:

– Deixe-me, que os marimbondos estão me matando!

E assim ficou o pobre rico, e o rico ridículo.

 

 

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Cecília E.
Cecília Erismann é uma poeta e artista com muitas curiosidades. Autora dos livros Poesia em Flor Menor e A dialogue between poetry and philosophy: An encounter of the writer with his reader, Cecília já teve seus textos publicados em diversas revistas, colaborações e ontologias. Atualmente ela mora em Berlin, onde consegue dar sempre um jeitinho de praticar os 5 idiomas que fala e arriscar de vez em quando uma ou outra palavrinha num outro idioma que ela ainda não conheça muito, tipo italiano.
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