Quem define as regras do espanhol?

O espanhol é falado por mais de 500 milhões de pessoas, mas como esse idioma consegue seguir consistente? Afinal, quem define as regras do espanhol? A resposta vem da Real Academia Española e a Asociación de Academias de la Lengua Española, as “fiadoras” da unidade da língua hispânica.
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ESCRITO POR Gabriel B.
Quem define as regras do espanhol?

Com cerca de 500 milhões de falantes nativos em quatro continentes, é normal que variações linguísticas do espanhol existam entre países hispanohablantes. Embora seja a mesma língua, o idioma usado na Argentina ou Cuba, por exemplo, é um pouco diferente daquele do Chile ou da Espanha. Ainda assim, a língua se mantêm compreensível entre nativos.

Como isso é possível e quem garante essa coesão em escala global?

A resposta envolve a Real Academia Española (RAE), criada em 1713, em estreita colaboração com as academias da Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE), fundada em 1951. E também escritores ilustres como os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (em 2010) e o já falecido poeta Vicente Aleixandre (em 1977).

Em parceria com a ASALE, linguistas e escritores/críticos de destaque, a RAE define as normas do espanhol para garantir que as mudanças experimentadas pela língua “não quebrem a unidade essencial que mantém em todo o âmbito hispânico”. 

As 23 academias, baseadas na Espanha, Américas, Filipinas e Guiné Equatorial, discutem em grupo os projetos sobre essas regras comuns, incluindo assim diferenças regionais em suas publicações, como em La Ortografía de la lengua española (2010).

Parece interessante, mas como funciona na prática? 

Com base no trabalho de diversas equipes e de obras localizadas no mundo hispânico, os acadêmicos da ASALE e da RAE mantêm atualizado o banco de dados Corpus del Español de Siglo XXI (CORPES). “[Anualmente], incorporam-se 25 milhões de formas de espanhol ao nosso arquivo, 70% vindas da América, Filipinas e Guiné, e 30% da Espanha”, explica à Babbel o teórico literário Darío Villanueva Prieto, ex-diretor da RAE.

As fontes orais para essas novas maneiras de falar vêm da TV, rádio, música e cinema. A escrita é influenciada pela imprensa, literatura, ciência, política, economia e sociedade. “Neste momento, o banco de dados já tem 300 milhões de formas, onde essas palavras estão na frase que as contextualiza para saber exatamente o seu significado, com referência inequívoca à data de sua captura, fonte e local de origem”, diz Prieto. 

As variações regionais do idioma são tratadas como normais e formas de expressão, afirma o teórico: “Todas as variedades consolidadas da língua são igualmente corretas. Por exemplo, o seseo é uma variante amplamente estendida, embora não pertença à prosódia espanhola inicial. O mesmo pode ser dito do voseo, considerado na gramática como uma variante plenamente aceita, com o que representa não apenas no uso diferencial de pronomes pessoais, mas também em algumas formas de conjugação verbal.”

Segundo o Ministério da Educação da Espanha, o “seseo” é a pronúncia das letras c (ante e, i) e z com o som da letra s. Isso afeta apenas a pronúncia. Por exemplo, para um ‘seseante’, taza é falada como tasa, cena – sena, cereza – serésa. É comum na América e em partes da Espanha, como nas Ilhas Canárias e Andaluzia. 

O voseo é a substituição do tú pelo vos, que é utilizado para abordar alguém conhecido ou em igualdade. Para situações formais, usa-se o usted. O voseo aparece apenas na segunda pessoa do singular. No plural, a regra é invocar o ustedes, nunca vosotros. Em termos de conjugação verbal, o voseo implica no uso de plurais de segunda pessoa e  imperativos. É mais presente em Argentina, Uruguai e América Central.

Quanto ao léxico, as localizações geográficas/significado de cada palavra costumam aparecer no dicionário em abreviação. Por exemplo, a marca para origem espanhola é “Esp.”. A palavra vereda como uma calçada de uma rua ou praça traz as marcas Arg., Bol., Chile, Ec., Par., Peru, Ur. e Ven. Já com o sentido de caminho como seção administrativa de um município ou paróquia abriga a Col.

Essas variações regionais não impedem, contudo, a comunicação e a compreensão mútua entre hispanohablantes. “O grau de unidade ortográfica é total e extremamente alto nos aspectos gramaticais. Em relação ao léxico, o que pertence ao que os linguistas descrevem como “espanhol geral ou espanhol comum” excede 90%”, garante Prieto. 

O ex-diretor da RAE cita um exemplo contemporâneo: “Recentemente houve um episódio ridículo, imediatamente corrigido, quando a Netflix distribuiu na Espanha cópias do filme ROMA, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, legendado sem que fosse necessário quando os protagonistas falavam espanhol no México (era outra coisa quando falavam a língua indígena de dois personagens femininos).”

Americanismos 

Conforme indicam as milhões de novas entradas anuais no CORPES, a influência hispano-americana no idioma é ampla. E você sabe quais palavras americanas acabam incorporadas no espanhol da Espanha? Prieto diz que são aquelas ligadas a produtos, animais, plantas, práticas e realidades originários do continente: “O primeiro americanismo chega por meio do vocabulário latino castelhano de Nebrija em 1494. E é ‘canoa’ definida como um navio de uma única madeira.”

Na plataforma Enclave RAE é possível buscar todos esses empréstimos linguísticos desde o século XV!!

A RAE também possui o Diccionario de americanismos, “com um repertório léxico que busca recolher todas as palavras hispano-americanas, detalhando ao máximo as informações sobre as características geográficas, sociais e culturais do uso de cada um dos significados registrados”. O objetivo deste trabalho é detalhar as diferenças entre a língua falada em cada país hispânico.

Bases de consulta 

Um exemplo material de como a RAE busca manter o idioma espanhol conciso é a elaboração em curso do Glosario de términos gramaticales (GTC), um trabalho pan-hispânico para corrigir distorções da língua. “A Academia tem apontado, em muitas ocasiões, a confusão que tal proliferação de sistemas gramaticais e nomenclaturas causa em estudantes e professores”, diz à Babbel a RAE. 

Em outras palavras: o ensino da língua pode acabar afetado porque conceitos gramaticais variam de acordo com a escola linguística de alunos e professores. O objetivo do GTC é criar “uma proposta de terminologia gramatical unificada” para “o ensino médio nos países de língua espanhola”.

Integram o grupo de trabalho, coordenadores linguísticos de México e América Central, Chile, Rio da Prata, Área Andina, Caribe continental, Antilhas, Estados Unidos, Filipinas, Espanha e Guiné Equatorial. Assim todas as vertentes do espanhol possuem alguma influência no resultado final.

Outros projetos conjuntos da RAE e da ASALE incluem o Diccionario panhispánico de dudas (DPD), composto por mais de 7 mil verbetes e que traz respostas “às dúvidas mais comuns” do uso do espanhol, incluindo questões fonográficas, morfológicas, sintáticas, entre outras. Todas as academias trabalharam na obra para obter um resultado que respeite as variantes de uso e preservam a unidade em toda a esfera hispânica.

Quem são os membros? 

A RAE é composta por 46 membros vitalícios de número que representam uma letra do alfabeto (incluindo maiúsculas e minúsculas), e um máximo de 60 membros espanhóis correspondentes, hispânico-americanos, estrangeiros e honorários.

No momento, apenas oito letras do alfabeto não estão representadas (ou nunca o foram): v, w, x, y, z, Ñ, W, Y.

Podem ser escolhidos como membros de número quem “se distinguiu por sua criação literária ou conhecimento científico em relação às tarefas da instituição e que, em qualquer caso, tem uma qualidade excepcional no uso de o idioma espanhol”. 

Os membros da academia espanhóis também precisam ser renomados, além de representar todas as regiões espanholas, o mesmo vale para os hispânico-americanos (que algumas vezes já são acadêmicos de número) e correspondentes estrangeiros.

Além de Vargas Llosa e Vicente Aleixandre, outros nomes famosos integram (ou integraram) a lista de acadêmicos de números, entre eles diversos outros vencedores do Nobel de Literatura: José de Echegaray (1904) Camilo José Cela (1989), Jacinto Benavente (1922 – foi eleito acadêmico da RAE em 1912, mas nunca tomou posse). Além do diplomata Salvador de Madariaga e Víctor García de la Concha, ex-diretor do Instituto Miguel Cervantes.

A RAE tem um histórico pouco simpático a mulheres. A primeira eleita como acadêmica de número foi a poeta Carmen Conde, apenas em 1979. Atualmente, há somente 8 mulheres entre os 46 membros.

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