Quais as línguas africanas mais populares no Brasil? Conheça algumas palavras e seus significados

A língua portuguesa é cheia de história e sincretismos. Neste texto, conheça a herança valiosa que temos do continente africano.
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ESCRITO POR Karoline Gomes
Quais as línguas africanas mais populares no Brasil?  Conheça algumas palavras e seus significados
Ilustrado por Paula P. Rezende

Se o idioma oficial do Brasil é o Português por causa de seus descobridores, a maneira única de falar essa língua vem da preservação de culturas que resistiram à colonização. Segundo Frei David Raimundo dos Santos, presidente da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes), ao lado das línguas nativas brasileiras, as de origem indígena, a língua africana é “a mais determinante para o fortalecimento da linguagem que perpassa os quatro cantos do nosso país”. 

Tão determinante que ainda permanecem no nosso dia a dia, com mais de 1500 palavras originárias do continente africano, trazidas pelos povos que foram escravizados por europeus. Ainda de acordo com Frei David, a resistência dos idiomas africanos no Brasil se deve, especialmente, às religiões de matrizes africanas, que valorizam, retomam e trabalham a linguagem. 

Para o especialista, pouco se sabe pouco sobre as origens de muitas palavras africanas usadas no Brasil por causa do racismo que ainda assombra a história do país, já que o Brasil foi o último país a abolir a escravatura no mundo, e isso data somente 130 anos atrás. “Não é interesse dos meios de comunicação dominantes trazer ao conhecimento da população que as várias línguas que vieram das culturas africanas nos influenciam até hoje”, diz. 

Essa influência também se dá pela assimilação, que até hoje mantém tais palavras vivas no nosso vocabulário. Nos tempos de escravidão, povos da África faziam uso de palavras e dialetos de seus países de origem com tanta frequência a ponto de tornar esse uso a norma – e hoje –, muitas dessas palavras substituíram vocábulos da língua portuguesa.

“Em Portugal não se encontram palavras que, para os brasileiros, são comuns . Há uma característica na fala do povo brasileiro que vem sendo preservada por gerações, algo que a classe europeia dominante teve que engolir  e assimilar na própria linguagem para conviver em sociedade”, explica Frei David.  

As primeiras influências africanas no português brasileiro chegaram no século XVI, com povos trazidos de diversas partes da África para o norte do Equador.

Do século XVII ao XVIII, foram trazidos povos de Benin, Thogo e Ghana, e no século XIX populações do que conhecemos hoje como Angola, Congo e Moçambique também foram trazidas para o nosso país, que ainda era colônia de Portugal.

“No nosso leque, as palavras que persistem são de línguas dessas regiões, como são conhecidas hoje, pós colonização quando foram feitas as separações dos países no continente Africano”, explica a professora livre-docente do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo (USP) Margarida Maria Taddoni Petter, que dedica sua vida acadêmica a pesquisar e registrar a história e a influência africana na língua portuguesa falada no Brasil. 

A pesquisadora acredita que este desconhecimento sobre a origem de uma parte da fala dos brasileiros precisa ser combatido. “As condições (ou falta de) com que o povo negro foi deixado no Brasil pós abolição, por muitas vezes, colaborou para estereótipos terríveis, assimilando-os com falta de educação e sabedoria. Trata-se exatamente do contrário. São seres humanos, que construíram sozinhos sua própria cultura, conhecimentos e história. Tinham conhecimento que os portugueses não tinham”, argumenta. 

Para colaborar com essa desconstrução, pedimos aos especialistas uma lista de palavras do dia a dia brasileiro que, talvez você não saiba, mas têm origem na África! Confira a lista: 

Dengo: em meio a uma dura realidade, um aconchego, um conforto recebido de quem se ama. Esta seria a tradução mais familiar da palavra utilizada por famílias africanas. De maneira técnica no português, significa “lamentação infantil”, “manha”, “meiguice”. 

Samba: ele mesmo, o ritmo nascido e criado em terras brasileiras! Acredita-se que a palavra vem de “semba”, do dialeto angolano quimbumbo. Semba, nada mais séria que “umbigada”, uma referência a maneira como o ritmo musical é dançado. 

Cafuné: a palavra também tem origem no quimbundo, e significa acariciar/coçar a cabeça de alguém.

Caçula: antes da língua portuguesa transformar sua grafia e pronúncia, a palavra para o filho mais jovem de uma família era “kaluza”. 

Lenga-lenga: significa conversa fiada, balela. Com o tempo, também passou a ser usado para descrever uma conversa chata ou um ato muito demorado, atrasado. Há muitos registros da palavra no antigo vocabulário de partes da África. No dialeto suaíle, significa “prestes a chorar”; no quimbundo, significa fugir de algum assunto ou situação. E a inspiração mais provável vem do dialeto quicongo, cuja palavra ndenga-ndenga significa lentidão, permanecer, durar muito tempo da mesma maneira. Em outras palavras, uma enrolação. 

Moleque: de “mu’leke”. O mesmo que “filho pequeno” ou “menino”, por um tempo, a palavra tinha um sentido pejorativo, justamente pelo conhecimento da sociedade de que esta é uma palavra africana.

Caçamba: o começo do uso da palavra kisambu, que depois virou caçamba, é datado do século XIX. Era como os escravos chamavam cestos usados em plantações. 

Quitanda: kitanda era a maneira com que angolanos descreviam feiras ou praças para fazer compras e negócios. Não é à toa que o termo é usado no Brasil para descrever estabelecimentos pequenos, de bairro, que vendem produtos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos, etc.

Fubá: a farinha feita com milho ou arroz era a base da alimentação dos africanos e afro-brasileiros antes da abolição. E angu – creme feito apenas com fubá e água – hoje é a base de pratos típicos brasileiros.

Cachaça: não só a palavra, como a iguaria é originada dos africanos, que trabalhavam nas plantações de cana-de-açúcar, assim como na produção de açúcar. Hoje esta é a bebida mais consumida no Brasil, perdendo apenas para a cerveja.

Axé: a palavra não é só o nome para um estilo musical. A Bahia é o principal estado brasileiro a herdar – e a manter – o hábito africano de dizer “axé” como um  cumprimento ou despedida, pois significa “boa-sorte”. 

Candomblé: é a união do termo quimbundo candombe, que significa “dança com atabaques”, com o termo iorubá ilé ou ilê (casa): “casa de dança com atabaques”. Uma bela palavra para se denominar uma religião de matriz africana. 

Tanga: outro produto que não apenas foi nomeado, como também criado pelos africanos, juntamente com povos indígenas brasileiros. Era como chamavam os pedaços de pano que usavam para se cobrir. A cultura foi se desenvolvendo e hoje a palavra é usada para nomear um artigo de vestuário.  

Muvuca: festa, celebração. Qualquer evento que reúna muitas pessoas como forma de lazer. Antes de ser “aportuguesada”, se escrevia Mvúka. 

Berimbau: embora hoje pertença inteiramente a cultura brasileira, o “descendente” do instrumento veio da cultura africana Bantu e chamava-se mbirimbau

Minhoca: a palavra deriva do kimbundo “nhoka” pois, durante a colonização, os africanos que habitavam o país achavam o bichinho das terras brasileiros muito parecido com uma pequena cobra encontrada em terras africanas. 

Ginga: chamamos o balançar, a oscilação, o requebrar do corpo tal como muitos dos antepassados africanos que estiveram no Brasil. 

Marimbondo: poderia se chamar apenas “vespa”, mas a influência africana trouxe esta palavra derivada da maneira com que os africanos chamavam o inseto. 

Miçangas: usadas para decorar bijuterias como pulseiras, brincos ou colares, as miçangas têm origem na África, cujos povos já tinham hábitos de produzir estes tipos de enfeites. A miscigenação no Brasil transformou a palavra “mussanga” em miçangas. 

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Karoline Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.
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