Tiquimdjinada pó cê! Você sabe falar mineirês? Fizemos uma breve análise desse modo de falar brasileiro

O falar do mineiro é antigo e pode parecer, muitas vezes, até outro idioma. Veja como o *mineirês* se tornou um dos​ sotaques mais famosos do Brasil.
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Minas Gerais, onde tudo começou

Atire a primeira pedra quem não gosta de um bom pão de queijo! O estado de Minas Gerais tem não só umas boas guloseimas, mas também uma história cultural muito rica, e que resultou no falar mineiro.

Mas é difícil definir o mineirês como algo absoluto, já que o estado é bastante diversificado e isso também reflete na forma de falar do povo mineiro.

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O sul do estado recebe uma influência do falar paulista, o norte já se assemelha mais ao jeito baiano. Na Zona da Mata, especialmente em Juiz de Fora, o mineirês adotou características cariocas, inclusive uma colega carioca aqui da Babbel chegou brincar dizendo que as pessoas de lá seriam os “cariocas de Minas”.

Uai, esse trem aí tem história…

No século XIX, Minas Gerais foi um estado famoso pela extração de minérios (razão do seu nome), e também por sua produção cafeeira e de latícinios (que tem tradição até os dias de hoje como modelo do país). Além dos setores agrário e de extração, Minas Gerais contou com a expansão rodoviária realizada pelos ingleses no mesmo período.

Uma hipótese para explicar a origem do famoso “uai” mineiro é que este veio do termo inglês why (por quê) e perseverou ao longo dos séculos, se tornando uma expressão típica (inclusive Paul McCartney usou a semelhança para esbanjar simpatia no seu show em BH anos atrás). Mas existe também outra hipótese que analisa o “uai” como sendo uma derivação de “olhai”(2ª pessoa do plural do verbo “olhar” no imperativo afirmativo), passando para “uiai”, até chegar à forma “uai”.

Outra teoria seria a de que o termo era, na verdade, uma senha para entrar em reuniões maçônicas lideradas pelos Inconfidentes Mineiros: “UAI” seria a sigla para União, Amor e Independência. Passada a revolta, o termo foi adotado pelos mineiros.

Já a monotongação de alguns ditongos, ou seja, a tendência de apagamento da semivogal em ditongos (como falar “pexe” em vez de “peixe”), é herança direta dos escravos, que eram maioria no estado no auge da produção mineira. É importante notar que essa é uma análise relativamente simples da influência dos idiomas africanos no falar mineiro, uma vez que todos os escravos não falavam o mesmo idioma. Mas, como aprenderam informalmente a língua portuguesa e sua escolarização foi tardia por conta de sua condição, sua forma de falar foi absorvida na região, já que formavam 60% da população na época. (fonte)

Pó pára!

O jeitinho mineiro pode parecer, muitas vezes, um outro idioma:

Moço, eu não faço ideia prondecovô. Você sabe onde é o pondions ali na ruditrás?”

(Moço, eu não faço ideia para onde que eu vou. Você sabe onde é o ponto de ônibus na rua de trás?)

Cadiquê cê deu o trem lá para ele? Todo mundo sabe que ele é mó Zé Dendágua.”

(Por causa de que você deu o trem lá para ele? Todo mundo sabe que ele é o maior Zé Dendágua.)

É importante observar que essa variação linguística não interfere na norma padrão do português, mas ela pode aparecer em textos humorísticos e até mesmo em cartões postais (e para referência escrevemos no vídeo e aqui exatamente como a frase é falada).

Voltando ao mineirês, outras gírias que adoro, sempre ouvi e falei (e fazendo a pesquisa para este artigo descobri que vêm justamente de Minas Gerais) são: “breguete” (coisa), “bololô”(aglomeração), “bora” (ir, “vamos embora”), “tiquim” (pouco), “cambito” (pernas finas) e “jacú” (bobo).

“Borá vê o restim do artigo?”

Ó só p’cê vê!

Outra observação sobre o mineirês é que esse sotaque teve influências de basicamente todos os estados vizinhos: “É fácil encontrar variações em um mesmo estado: os moradores do norte de Minas falam como os baianos, os da região central mantêm o autêntico mineirês, no sul a influência paulista é intensa e no leste o modo de falar assemelha-se ao sotaque carioca”. (fonte)

A afirmação acima é bem interessante e reflete como o dialeto simplesmente não estagna. Sabemos que o mineirês é uma grande mistura não só de influências de outros estados, como também dos imigrantes que construíram Minas Gerais. E de forma alguma isso significa que o mineirês não tenha personalidade, muito pelo contrário – este é um dos sotaques mais característicos do país.

Uma grande amiga minha de Belo Horizonte falou algo interessante sobre ter essa forma de falar: “Eu posso falar inglês, espanhol, alemão, não importa… Eu saio de Minas, mas o mineirês não sai de mim”.

Será mesmo verdade que todo mineiro sempre mantém o seu sotaque ao falar em outros idiomas?

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