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Quatro mulheres que reescreveram o mundo

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o editor da Babbel, Samuel Dowd, reflete sobre quatro escritoras cuja obra surpreendente, radical e corajosa — às vezes bombástica, às vezes discreta — foi capaz de mudar o curso da literatura e da sociedade.
Escrito Por Samuel Dowd
Quatro mulheres

Quando Nina Simone compôs e gravou a canção Four Women — uma acusação angustiante do legado da escravidão — ela deu voz a gerações de mulheres afro-americanas que haviam sofrido abusos e injustiça. Assim como Simone, o século XX viu diversas mulheres valentes rejeitarem o “silêncio recatado” para encorajar outras mulheres na busca por seu espaço e fala. Trata-se de pioneiras como Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Monique Wittig, Maya Angelou, Bell Hooks e Nawal El-Saadawi, somente para citar algumas.

Eu herdei uma verdadeira paixão pela literatura de minha mãe. Todos os livros em nossa casa — amontoados em estantes, empilhados no chão ou na mesa de cabeceira — eram dela. Com frequência ela lia para mim, e eu adorava ouvir as diferentes nuances de sua voz. Quando ela lia, não só me ensinava a “língua materna”, como também deixava claro que as palavras formam o mundo: um escritor habilidoso tem o poder de moldar o ambiente a seu redor.

Os livros me conectam à minha mãe até hoje: a gente se encontra para trocá-los e debatê-los, bem como para falar sobre temas e autores. Muitas vezes, ao ler certas mulheres, encontro a conexão mais original, necessária e sobretudo política com nossa língua. Para celebrar o ano em que Berlim, a capital alemã, determinou o Dia Internacional da Mulher como um feriado público, vou analisar quatro escritoras.

Um mundo melhor não é possível sem a libertação das mentes, dos corpos e, acima de tudo, da linguagem das mulheres. — Nawal El-Saadawi

Quatro mulheres que impactaram a literatura mundial

1. Clarice Lispector

Depois que Clarice Lispector publicou Perto do Coração Selvagem, aos 23 anos de idade, o poeta Lêdo Ivo chegou ao ponto de considerar a obra “o maior romance que uma mulher já escreveu em língua portuguesa”. Surpreendendo seus contemporâneos brasileiros, Perto do Coração Selvagem descreve de maneira explosiva e perspicaz a consciência e a vida interior de uma mulher. As reflexões da personagem principal, Joana, são fugazes, quase alucinógenas e repletas de lírica. Ela desafia convenções e expectativas, incluindo as suas próprias.

Em 1944, o livro ganhou o conceituado Prêmio Graça Aranha. Lispector passou a escrever muitos outros romances, artigos e contos aclamados, incluindo A Paixão Segundo G.H. (1964), que descreve a experiência mística de uma mulher diante da morte de uma barata, e Água Viva (1973), uma colagem de reflexões mal intermediadas:

Refaço-me nestas linhas. Tenho uma voz. Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração.  Deixo-me acontecer.

O crítico Sérgio Milliet afirmou que Clarice Lispector “penetra a fundo na complexidade psicológica da alma moderna”. Por vezes, ela interroga a conexão entre a linguagem e a consciência, explorando sem hesitar o que significa estar viva dentro do corpo de uma mulher. Sem dúvida, foi uma das maiores escritoras do século XX e, nas palavras de seu tradutor e biógrafo norte-americano Benjamin Moser, a autora judia mais importante desde Kafka. Sobre Lispector, Hélène Cixous (sobre quem falarei mais abaixo) escreveu:

“Clarice é o nome de uma mulher capaz de chamar a vida por todas as suas alcunhas quentes e frias. E a vida vem. Ela diz: Eu sou. E no mesmo instante, Clarice é. No instante em que se entrega a ser, Clarice está inteiramente viva, infinita, ilimitada…”

2. Hélène Cixous

A escritora franco-argelina Hélène Cixous é considerada uma das mães da teoria feminista pós-estruturalista. O filósofo Jacques Derrida, que compartilhava a mesma bagagem judaico-argelina e com quem Hélène colaborou estreitamente, a considerava a maior escritora viva da língua francesa. Hélène publicou mais de 70 obras, incluindo 23 volumes de poemas, seis livros de ensaios, cinco peças teatrais e inúmeros artigos. Ela foi cofundadora da Universidade de Paris-VIII e fundou o primeiro departamento voltado a Estudos da Mulher na Europa.

No entanto, Cixous é muito mais do que uma prolífica escritora. Ela se empenha em levar a linguagem a seus limites absolutos, em quebrar as regras e em perseguir o momento presente que sempre se mostra efusivo. Poliglota, ela escreve em diversos idiomas. Em sua palestra de 2016, “I say Allemagne” (“Eu falo Allemagne”), Cixous sugeriu que, “ao aprender uma nova língua, você ganha em humanidade”. Ela derruba a prática secular de definir as mulheres pelo que lhes falta, desafiando a si mesma e aos outros a se redefinirem através da individualidade de seus corpos e biografias. Em seu ensaio mais famoso, Le Rire de la Méduse (“O Riso da Medusa”, 1975), ela explica:

Tudo o que não sabemos que podemos ser é escrito por mim, sem exclusões, sem estipulações, e tudo o que seremos nos chama à busca incansável, intoxicante e inapelável do amor. Um no outro, nunca nos faltará algo.

Esse ensaio é uma declaração apaixonada e desafiadora pela escrita emancipatória e transgressora das mulheres. Ao escrever ela mesma, Cixous demonstra que a linguagem pode ser aproveitada para reivindicar a liberdade e o futuro que, há muito tempo, tem sido negado às mulheres.

3. Audre Lorde

Uma força semelhante emana do trabalho de Audre Lorde, que argumentou que o erotismo feminino — reprimido e desvalorizado pela sociedade branca ocidental — é uma força empoderadora:

Reconhecer o poder do erótico dentro de nossas vidas pode nos dar a energia para buscar mudanças genuínas em nosso mundo… não apenas tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos aquilo que é feminino e autoafirmativo diante de uma sociedade racista, patriarcal e antierótica. 

Nascida em Nova York de pais naturais da Índia, Audre descrevia a si mesma como “negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta”. Desde a mais tenra idade, ela escrevia e recitava poesias. Mais tarde, já como ativista feminista, foi professora e bibliotecária. Sua obra fala da experiência ligada à marginalização e à privação de direitos. Audre foi extremamente influente junto a mulheres negras e também criticou a supremacia branca dentro do principal movimento feminista de sua época. Ao explorar sua identidade em seus textos, ela destaca a complexa interseção de gênero, raça, classe e sexualidade.

Lorde apoiou mulheres em Cuba e na África do Sul (ainda sob o Apartheid), bem como assumiu uma cátedra como professora-visitante na Universidade Livre de Berlim (Alemanha), onde ajudou a cunhar o termo “afro-alemão”. Isso, por sua vez, deu origem ao movimento negro na Alemanha, no qual ela sempre encorajava a resistência através da linguagem e não da violência. Professora de inglês e poetisa laureada do Estado de Nova York desde 1991, Lorde proclamava incansavelmente a importância da escrita:

“Para as mulheres, então, a poesia não é luxo. É uma necessidade vital para nossa existência. Ela forma a qualidade da luz sob a qual predizemos nossas esperanças e sonhos a fim de sobreviver e mudar, o que é feito primeiro na fala, depois no pensamento e, enfim, na ação mais tangível.” 

Seu trabalho é cheio de poder, raiva, revolução e metamorfose — o reflexo de uma mulher que procurou “pegar nossas diferenças e transformá-las em forças” e que se recusou a permanecer em silêncio quando confrontada com a injustiça.

4. Joumana Haddad

Outra autora que se recusa a ficar calada é Joumana Haddad — a enfant terrible do Oriente Médio. Poeta, jornalista, editora e tradutora premiada (fala sete idiomas), ela é a editora de Cultura do diário libanês an-Nahar e escandalizou o mundo árabe com sua revista erótica Jasad (“Corpo”). Sobre Joumana, o escritor Tahar Ben Jelloun declarou o seguinte: “A literatura é frequentemente uma tempestade que quebra as regras do decoro… e Joumana Haddad é um poeta que habita a tempestade.“

No meio desse furacão metafórico está Beirute, a capital do Líbano, onde Joumana nasceu e criou seus dois filhos. Ela se exime dos clichês ocidentais sobre as mulheres árabes, mas também desafia as visões árabes dominantes sobre a feminilidade. Tendo descoberto ainda menina obras do Marquês de Sade na biblioteca de seu pai, Joumana descreve sua jornada rumo à liberdade intelectual em seu ensaio autobiográfico I Killed Scheherazade — Confessions of an Angry Arab Woman (2010).

Nesse trabalho, ela expõe temas controversos como o erotismo feminino, a religião organizada e as mulheres na política — uma crítica mordaz tanto das crenças ocidentais quanto das árabes. Joumana cita Hélène Cixous: “ Se você censura o corpo, você censura a respiração e a fala ao mesmo tempo.” E prossegue escrevendo:

Pois uma mulher é sua única especialista, o próprio guia para si mesma. Ela é a única referência em seu corpo, seu espírito, sua essência.

No poema Still I Rise, Maya Angelou pergunta: “Minha sensualidade te perturba?” Joumana Haddad — sensual, sem vergonha, intransigente, franca — encara sua missão usando a linguagem para contestar o status quo atual, reivindicando seu próprio espaço, único no mundo. Ela acredita nisso:

“A leitura é uma das mais importantes ferramentas de libertação para qualquer ser humano, em particular para uma mulher árabe contemporânea.”

Hoje, em todos os continentes, as mulheres estão lendo outras mulheres e reescrevendo o mundo.


Quatro mulheres cujas obras mudaram a literatura contemporânea é um dos muitos temas culturais de nossa Revista. Leia mais: 

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Samuel Dowd

Durante seu bacharelado em escultura e seu mestrado em filosofia e artes temporais, Samuel Dowd viveu entre a Inglaterra e a Irlanda. Atualmente, ele trabalha como artista, cineasta, jardineiro, escritor e editor da Babbel. Sua paixão por experimentar e aprender coisas novas (de arquitetura a agricultura orgânica, passando por literatura e música em diversos idiomas) o levou a se aventurar pelo mundo. Samuel já morou na Finlândia, na Nova Zelândia, na Áustria, na Croácia e, desde 2013, em Berlim. Ele traduziu diversos trabalhos literários (um tanto estranhos, porém maravilhosos) para o inglês e ultimamente tem se esforçado em aumentar o tempo que consegue passar debaixo d'água sem respirar nem pensar em nada, em nenhum idioma.

Durante seu bacharelado em escultura e seu mestrado em filosofia e artes temporais, Samuel Dowd viveu entre a Inglaterra e a Irlanda. Atualmente, ele trabalha como artista, cineasta, jardineiro, escritor e editor da Babbel. Sua paixão por experimentar e aprender coisas novas (de arquitetura a agricultura orgânica, passando por literatura e música em diversos idiomas) o levou a se aventurar pelo mundo. Samuel já morou na Finlândia, na Nova Zelândia, na Áustria, na Croácia e, desde 2013, em Berlim. Ele traduziu diversos trabalhos literários (um tanto estranhos, porém maravilhosos) para o inglês e ultimamente tem se esforçado em aumentar o tempo que consegue passar debaixo d'água sem respirar nem pensar em nada, em nenhum idioma.

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