Podemos considerar a terminologia “o homem” no sentido de humanidade como linguagem sexista?

O que é linguagem sexista? Há maneiras de evitá-la? Continue lendo.
Escrito Por Tim Forster
Podemos considerar a terminologia “o homem” no sentido de humanidade como linguagem sexista?

O sexismo no vocabulário inglês

Quando comparado a outros idiomas (sobretudo europeus), o inglês apresenta um vocabulário considerado neutro no que diz respeito à variação de gênero. Uma prova disso são os adjetivos, sempre invariáveis, diferentemente do que acontece, por exemplo, no português. No entanto, apesar da ausência desse tipo de declinação, não se pode dizer que o inglês seja um idioma em que o gênero é totalmente irrelevante. Inclusive existem palavras cuja marcação de gênero pode ser considerada sexista.

O homem e as palavras

Muitas dessas palavras estão relacionadas a profissões — como é o caso de fireman (bombeiro), policeman (policial), chairman (presidente) etc. — mas também existem outras mais abrangentes, como mankind (humanidade) e man-made (artificial). O que esses vocábulos têm em comum é bastante óbvio: todos eles incluem a palavra man (homem) em sua composição, como acontece com a maioria dos vocábulos com marcação de gênero em inglês. Há algumas exceções, claro, como é o caso de actor/actress (ator/atriz) e steward/stewardess (aeromoço/aeromoça), estas últimas cada vez menos usadas desde que o termo flight attendant (comissário/comissária de bordo) se popularizou.

Mas será que a mera presença da palavra man é suficiente para tornar essas palavras sexistas? Sim! O sexismo implícito é bastante evidente no caso das profissões. Afinal, ao escolhermos palavras como fireman e chairman para designar uma ocupação, estamos partindo do pressuposto de que esses trabalhos são voltados para homens, e não para mulheres.

Bom, é importante dizer que essas duas palavras contam equivalentes feminizados — firewoman (raramente utilizada) e chairwoman —, mas tais variantes não representam uma boa solução. Em primeiro lugar porque o sexismo continua implícito, só que de forma reversa. Além do mais, essas opções dificultam a escolha de uma forma pluralizada que sirva para o grupo de profissionais como um todo. Para nos referirmos à corporação de policiais, por exemplo, precisaríamos dizer algo como policemen and policewomen, o que está longe de ser uma alternativa linguisticamente elegante. 

Como substituir as palavras com marcação de gênero?

Por sorte, a língua inglesa conta com uma solução para alguns dos casos citados aqui. Estamos falando das palavras de gênero neutro, como firefighter, police officer e chair, que podem ser usadas como sinônimos e não se limitam a nenhum gênero em específico. E o melhor: essas palavras não causam contradição. Em inglês, a maioria das profissões já tem nomes de gênero neutro: doctor (médico/médica), lawyer (advogado/advogada), artist (artista), engineer (engenheiro/engenheira). Ou seja, embora algumas pessoas reclamem do engajamento feminista que defende a substituição do termo chairmen por chair, a verdade é que essa medida só está tentando fazer com que tais palavras passem a seguir a mesma lógica verificada no idioma de forma geral. 

Deixando de lado as profissões, existem algumas outras palavras em inglês que também podem ser vistas como sexistas. É o caso de mankind e manmade, por exemplo. Ao se referir à humanidade como mankind, a língua inglesa parece confundir a existência humana com a existência de homens. No entanto, tendo em vista que palavras como mankind são um tanto abstratas, a situação se torna um tanto ambígua. Não à toa, afirmar que tais palavras são sexistas pode causar controvérsias.

Controvérsias e gênero neutro

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, que o diga. Em 2018, durante um encontro na cidade de Edmonton, ele corrigiu uma mulher na plateia por usar a palavra mankind

Trudeau disse algo como: “Preferimos usar o termo peoplekind, em vez de mankind, por ser mais inclusivo”. 

Essa atitude do primeiro-ministro gerou inúmeras críticas e até uma certa revolta, especialmente por parte de jornalistas conservadores, que disseram que as palavras de Trudeau eram de uma castidade exagerada e visavam apenas ao auto-enaltecimento. Também teve gente que criticou Trudeau não pela brincadeira com as palavras, mas por interromper o discurso de uma mulher que estava na plateia, praticando um ato conhecido como mansplaining.

Posteriormente, Trudeau se desculpou e disse que sua fala foi uma piada de mau gosto. Independentemente da opinião que podemos ter a respeito desse assunto, a verdade é que Trudeau gerou um precedente para o uso do gênero neutro em discursos e debates. 

De onde vem a palavra mankind?

É difícil defender a ideia de que palavras como fireman não sejam sexistas — afinal, existem bombeiros que não são homens. Quando se trata de palavras como mankind, porém, é possível deparar com argumentos coerentes que contradizem o sexismo implícito. 

Tais argumentos encontram suas raízes na história linguística: no idioma anglo-saxão, que precedeu o inglês moderno, mann era uma terminologia de gênero neutro. Anthony Koch, linguista da Universidade da Pensilvânia, explica que a palavra mann é um auto-hipônimo, pois “pode designar tanto um membro de uma categoria quanto um membro de uma de suas subcategorias”. 

Auto-hipônimos são bastante comuns no universo dos animais: “cachorro”, por exemplo, é um hipônimo, pois designa qualquer animal dentro dessa espécie, ao contrário de “cadela”, que se refere apenas a cachorros fêmeas.

Além disso, mankind deriva da palavra anglo-saxônica mann-cynn (cuja grafia pode variar). Resumindo: como o termo mann fazia referência mais às pessoas do que aos homens em específico, pode-se argumentar que a palavra mann-cynn é neutra no que diz respeito ao gênero. (É importante ressaltar que, entre os linguistas, não há um consenso sobre se a palavra mann é ou não neutra, dadas suas conotações históricas pouco claras.) 

Mesmo assim, há uma grande falha nesse raciocínio: as línguas evoluem com o tempo — e o significado das palavras mudam. Por mais que, no passado, a palavra mann (e sua sucessora man) fizesse referência a seres humanos em geral, hoje em dia, man se refere quase que exclusivamente ao gênero masculino. Como consequência, palavras construídas a partir do termo man acabam herdando, ainda que involuntariamente, certas conotações de gênero. 

O futuro das palavras com marcação de gênero no idioma inglês

Trudeau talvez tenha se equivocado ao tentar promover o neologismo peoplekind. Mas a verdade é que existem vários sinônimos para a palavra mankind. People (pessoas) é um deles. 

No entanto, apesar dos delírios de alguns detratores do primeiro-ministro canadense, não se pode dizer que a palavra mankind seja ofensiva. E dificilmente alguém vai fazer com que você enfrente um escrutínio público simplesmente por utilizá-la. De toda forma, tais palavras têm ficado cada dia mais fora de moda. Com certeza você vai conseguir encontrar sinônimos muito mais interessantes para substituí-las.

A linguagem sexista é um dos muitos temas que vêm sendo debatidos atualmente. Entenda um pouco mais com a revista da Babbel:

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Tim Forster
Tim é um jornalista e editor, que vive em Berlim. Ele escreve sobre tudo, de temas que vão desde reality show passando por restaurantes consagrados da Michelin até a indústria internacional de satélites. Ele fala francês fluente (graças a quase uma década em Montreal), um pouco de espanhol e está fazendo progressos no alemão.
Tim é um jornalista e editor, que vive em Berlim. Ele escreve sobre tudo, de temas que vão desde reality show passando por restaurantes consagrados da Michelin até a indústria internacional de satélites. Ele fala francês fluente (graças a quase uma década em Montreal), um pouco de espanhol e está fazendo progressos no alemão.

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