Como surgiu o Carnaval? Senta que lá vem história!

O Carnaval é uma festa que reverbera em muitas culturas há séculos. Mas, afinal, como surgiu o Carnaval e todo o conceito de folia? A resposta está em algum momento da história, milhares de anos atrás.
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ESCRITO POR Joriam Philipe
Como surgiu o Carnaval? Senta que lá vem história!
Ilustrado por Ana Lopes

O ano é 1054 A.C. — duas pessoas desconhecidas se esbarram numa dança no meio da floresta. Elas se olham e começam a dançar juntas, até que ouvem uma piada e caem no riso. Elas estão nuas e seus corpos mostram claro interesse de uma pela outra.

O ano é 98 A.C. — um escravo passeia pelas ruas de Roma levando o seu senhor literalmente pela coleira. O senhor gargalha e faz piadas de mal gosto para todos que vê na rua, fingindo que é um cão malcriado.

O ano é 1883 — um Pierrot, no ápice de seu monólogo, lembra para quem está ali presente que as máscaras não são apenas um acessório, mas um convite a uma noite diferente na vida. O salão se olha com antecipação.

O nosso amado Carnaval é o filho, neto e tataraneto de muitas outras celebrações mundo afora. É assim que novas festividades nascem: uma vai se baseando na outra criando o seu próprio jeito de ser.

Hoje vamos dar uma olhada em algumas dessas festas que — mesmo milhares de anos mais tarde — ainda reverberam na irreverência das nossas marchinhas e nos mostram que talvez exista algo aí que é tão humano que valeu a pena preservar por todo esse tempo.

Como surgiu o Carnaval: origens pagãs

Muito do que hoje em dia nossa sociedade considera como festival e até mesmo festa tem sua origem em celebrações com mais de 4 mil anos atrás. Por azar ou incompetência, muita informação sobre esses ritos antigos foi perdida ao longo dos séculos, mas algumas pílulas de conhecimento parecem apontar para o que viria no futuro.

Na antiga Mesopotâmia, por exemplo, as festas para o Deus Marduk levavam o rei a se ajoelhar e ser açoitado — talvez dando início a uma longa tradição de papéis sociais sendo invertidos. Já os Egípcios tinham celebrações que envolviam tanto máscaras quanto sátiras.

Mas nenhuma divindade foi tão influente para o que viria a ser o Carnaval do que o Deus grego do vinho e do prazer: Dionísio. As celebrações para esse Deus eram opulentas! Envolvendo uma bebedeira sem fim e orgias ao ar livre — tudo em nome da boa colheita que viria se os participantes se deixassem levar pelo momento.

As celebrações não chegavam a ser um festival em si, eram menores e muitas vezes em regiões vazias para que escapassem dos olhares curiosos. Assim mesmo, as lendas e histórias se espalharam, influenciando inúmeros outros ritos pelos anos a vir.

Não é à toa que um dos apelidos do Deus era Eleutherios, o Liberador.

Roma e a lendária Saturnália

É sabido que civilização romana, com mais tradições militares e menos manifestações culturais, bebeu muito na fonte da cultura grega — porém, não ao pé da letra. A sociedade romana era criada para a conquista imperial, não para a democracia e independência das cidades helenas. Muito do que foi absorvido foi modificado para se encaixar nesse novo contexto.

Assim foi que os ritos para Dionísio foram a inspiração para a criação de um grande (aí sim) festival. Não para o deus Baco, que era o deus do vinho romano, mas para Saturno, o deus da agricultura.

Se as celebrações dionisíacas eram afastadas e em pequenos números, a Saturnália mostrava o caráter urbano da civilização romana: uma imensa e intensa festa de 7 dias consecutivos — o comércio parava por todo esse tempo e a cidade toda saia de casa.

O Carnaval pode ser uma grande lenda mundo afora esses dias, mas nada se compara à Saturnália, que continua sendo uma lenda mais do que 2 milênios após a sua última edição: escravos eram liberados de suas obrigações e podiam até mesmo tirar sarro dos donos. Pessoas se presenteavam com vasos com figuras eróticas. A moralidade ia a zero e até mesmo a polícia cessava a maior parte das suas atividades.

Por 7 dias inteiros. Devia ser um tremendo caos!

Por 7 dias toda uma sociedade, do escravo ao imperador, esquecia os seus papéis e ia para a rua dançar, beber enlouquecidamente e tirar sarro da cara das pessoas.

Portanto, não é surpresa alguma que com o crescimento da Igreja Católica na sociedade romana, essa festa começou a ser proibida e seu significado modificado.

Como surgiu o Carnaval: origens latinas 

Pouco a pouco, festas diversas foram sendo fundidas em uma celebração única: o carnaval — a festa que precede o período de jejum da quaresma.

A palavra carnaval tem sua origem no latim: carne (igual ao português) e vale (em latim, adeus ou afirmativo dependendo do contexto), representando assim o abandono do mundo carnal e a chegada do momento mais espiritual do ano. Claro que a língua portuguesa manteve a mesma palavra do latim carne, mas no espanhol mesmo a palavra vale ainda se mantém em alguns dos seus sentidos, como o de afirmação.

Durante a Idade Média, o Carnaval perdeu um pouco o seu apelo, sendo transformado em um momento de introversão e não extroversão. Demoraria séculos até que uma outra grande força cultural: as opulentas cortes da França e Itália, trouxessem o espírito da brincadeira de volta para a festa.

Por muito tempo o Carnaval foi marcado pelos bailes de máscaras da nobreza europeia — o sonho de jovens menos abastados era participar de uma dessas festividades e com sorte encontrar o seu par para uma vida mais rica.

Mas por volta de 1880, na França, algo importante aconteceu. Algumas pessoas começaram a entender algo fundamental (e ainda verdadeiro) sobre o Carnaval — ele era muito lucrativo. Assim bailes começaram a ser criados para todas as classes sociais. Mais caros ou mais baratos, todos eram um bom negócio afinal!

Assim o Carnaval começa a se popularizar e espalhar. Os bailes de máscaras, com suas cortesias e valsas, não foram totalmente abandonados, mas muitas vezes satirizados pelo povo.

Quando você vir um Pierrot, um Arlequim ou uma Colombina no próximo bloco, lembre-se que eles só estão ali pois eram personagens frequentes nas peças de teatro das cortes italianas no fim do século XIX.

Como surgiu o Carnaval: a mistura de influências no Brasil 

A colonização portuguesa trouxe também suas festas e celebrações: entre elas o Entruto — uma festa de rua que envolvia jogar farinha, ovos e tinta em outras pessoas pela rua. Essa foi a primeira semente que eventualmente se transformaria no Carnaval, mas do bom jeito brasileiro, ela foi se misturando com todos os outros fenômenos culturais acontecendo pelo mundo e sendo trazidos para cá.

Claro que a explosão popular dos carnavais franceses e italianos trouxe as fantasias e até o nome carnaval para terras tupiniquins, mas também tivemos influências de folclore indígenas e diversas manifestações culturais africanas.

A parte boa é que as influências foram diferentes pelo Brasil afora — por isso que os Carnavais carioca, baiano e pernambucano são tão diferentes.

Uma festa sem limites culturais

Das florestas às praças de Veneza, essas festividades não foram nem de longe as únicas a influenciar o Carnaval de hoje em dia.

Hoje em dia ele é celebrado em mais de 50 países do mundo. Da ilha de Trinidad, no Caribe, a província de Goa, na Índia, o mundo inteiro parece descobrir o seu tipo de folia e pular por alguns dias. É tudo uma grande sopa no caldeirão.

Isso é mais uma linda prova de que nossas culturas estão em constante mudança: quem imaginaria há 3 mil anos que algum pedaço da festança de lá ia sobreviver ao teste do tempo?

Que tal visitar esses outros Carnavais e entender as letras das marchinhas do outro lado?

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